16/06/2026
Drama

Uma Onda no Ar

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No início dos anos 80, uma emissora pirata do Aglomerado da Serra, idealizada por Misael Avelino dos Santos, ecoava nos quatro cantos de Belo Horizonte. O conteúdo político da programação da Rádio Favela, que ia ao ar apenas durante A Voz do Brasil, sofreu constante repressão policial e seu idealizador, Misael Avelino dos Santos, foi preso inúmeras vezes até conseguir concessão, em 2002, para atuar como emissora comunitária.

Essa história serve de base para Uma Onda no Ar, de Helvécio Ratton, que ao lado de Cidade de Deus, de Fernando Meirelles e Katia Lund, e Madame Satã, de Karim Ainouz, leva a periferia para as telas, mostrando a força das temáticas sociais no cinema brasileiro atual. Em termos estéticos, Ratton abdica de qualquer estilização e ajusta o foco no enredo e nos personagens. Filmado em 16 mm e ampliado para 35mm, Uma Onda no Ar tem um aspecto granulado que lhe confere um ar documental, assim como a figuração verdadeira de muitos moradores da favela.

Jorge (Alexandre Moreno) se junta aos amigos Zaquiel (Adolfo Moura), Brau (Benjamim Abras) e Roque (Babu Santana) para criar um programa exibido durante A Voz do Brasil. O projeto, entretanto esbarra na falta de dinheiro e o grupo se desdobra para consegui-lo. Jorge, bolsista de um colégio particular onde a mãe é faxineira, lava carros; Zequiel é técnico em eletrônica, Brau é artista e Roque acaba entrando para o tráfico de drogas.

Quando conseguem colocar no ar a Rádio Favela que, rapidamente, cai nas graças tanto dos favelados como de outros setores da cidade, os amigos passam a lidar com os policiais que não toleram as mensagens conscientizadoras da emissora. Jorge, então, é preso e recebe o apoio de uma jornalista, de um advogado e de todos os moradores da região que não concebem a idéia de ficar sem "a verdadeira voz do Brasil".

Uma Onda no Ar tem um tom bem didádico que lhe confere uma capacidade de comunicação com todas as parcelas da sociedade. Prova disso foi a sessão ao ar livre para os próprios moradores do Aglomorado da Serra, que assistiram ao filme e se reconheceram na tela. Esse não é um filme destinado à classe média para mostrar a miséria e a violência policial. É uma história sobre resistência e perseverança. No entanto, a fita sofre de alguns problemas narrativos. Os personagem são romantizados demais, principalmente Jorge que é tão certinho que delega a Alexandre Moreno, que ganhou o Kikito na categoria de melhor ator no Festival de Gramado, uma tarefa bem difícil: fazer o público acreditar naquele personagem. Assim como Roque que, sem um grande motivo, arma uma confusão numa festa para que mais uma vez o salvador Jorge intervenha para o bem geral. Mas, ainda assim, a fita contribui quando coloca a favela e o negro nas telas no papel de protagonistas e não como meros figurantes de histórias alheias.

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