03/06/2026
Drama

É O Amor

Odile suspeita de que o seu marido está a traindo e decide se vingar. Para isso, se envolve com Daniel, um ator que vive com um ex-militar. Os encontros e desencontros da dupla irão interferir na vida de todos.

post-ex_7

Pouco conhecido no Brasil, o francês Paul Vecchiali foi uma surpresa e polêmica na Mostra
de Cinema de São Paulo de 2014 com seu Noites Brancas no Píer, uma adaptação bastante
peculiar de Noites Brancas, de Dostoievski. É o amor, seu novo longa, no entanto, é bem
mais acessível – embora ainda um pouco estranho, o que fica claro logo na primeira cena,
quando um homem (Julien Lucq) chega em casa depois do trabalho e trava uma conversa
com sua mulher (Astrid Adverbe), enquanto ele se despe. Durante todo o diálogo, a câmera
mostra apenas a ele – mesmo durante as falas dela. Depois, a mesma cena é repetida,
mostrando apenas ela, que desconfia da fidelidade dele.

Para se vingar, a moça se envolve com Jean (Pascal Cervo), um ator premiado que está em
crise, evitando os holofotes numa pequena cidade, junto com seu companheiro, um ex-militar
(Frédéric Karakozian), que fez figuração no último filme que ele protagonizou. Arma-se, então, uma ciranda de encontros, desencontros e traições.

O diretor francês filma para causar estranhamentos. A estrutura propositadamente solta da
narrativa é algo que pode dispersar o interesse, mas também é um quebra-cabeça convidativo
a quem se deixa levar pelo fluxo da existência desses personagens. As cenas são levemente
dispersas– embora, no conjunto, se liguem – , com uma câmera discreta, que observa com um
certo distanciamento.

Será que Vecchiali acredita num possível determinismo do amor? Todos estão fadados ao
fracasso e sofrimento? Ou apenas investiga os mecanismos de aproximação e distanciamento
entre duas pessoas? Talvez perguntas como essas não importem muito. O que fica são as
peculiaridades da forma que o cineasta usa em seus longas, além de uma divertida sátira a O
Estranho do Lago
– aqui “refilmado” de maneira tosca e com elenco bastante diferente dos
nudistas charmosos do filme cult de 2013.

A grande questão tanto nesse É O Amor, como em Noites Brancas no Píer, é simpatizar
com os personagens. Estes são pessoas cujas existências se limitam a sofrer por amor – o
tempo todo e apenas isso. Não há um respiro de vida que não esteja ligada à existência da
cara-metade. Com isso, são incapazes de perceber que o verdadeiro drama de suas vidas não é
o outro, mas eles mesmos – e isso nunca vai se resolver apenas com uma busca amorosa.

post