04/06/2026
Drama

Uma história de loucura

Filho de pais armênios radicados na França, o jovem Aram envolve-se com radicais e participa de um atentado à embaixada turca em Paris, uma vingança contra o genocídio armênio de 1915. Na explosão, no entanto, é gravemente ferido um ciclista que passava. Os pais de Aram, especialmente a mãe, ficam desolados. E ela se empenha para que o filho peça perdão à vítima.

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Uma história de loucura, de Robert Guédiguian, não é apenas mais um filme a lembrar o genocídio armênio (1915-1923). O diretor, de origem armênia, visitou antes e de várias formas suas raízes, em filmes como L’armée du crime (09) e Le voyage em Arménie (06).
 
Este novo trabalho explora a permanência desse massacre de cerca de um milhão e meio de pessoas, não reconhecido ainda por seus perpetradores (o Estado turco), o que enseja várias tentativas de vingança. Uma delas, de que trata esta história, adaptada por Guédiguian e Gilles Taurand da autobiografia do jornalista espanhol José Antonio Gurriaran, colhe uma vítima inocente - o que permite discutir a questão da responsabilidade, da culpa e das possibilidades de reparação.
 
No início, relembra-se um episódio ocorrido na Berlim de 1921. Ali, um jovem armênio, Soghomon Thelirian (Robinson Stévenin), assassina Talaat Pacha (Francis Boulme), tido como grande responsável pelo genocídio. Preso, o réu é tão eloquente em sua defesa que termina absolvido.
 
Sessenta anos depois, Aram (Syrus Shahidi), jovem de origem armênia habitante da França, participa de um atentado à embaixada turca em Paris. No momento em que detona a bomba, inesperadamente um jovem ciclista, Gilles Tessier (Grégoire Leprince-Ringuet), aparece e é gravemente ferido.
 
Comerciantes modestos, os pais de Aram (Ariane Ascaride e Simon Abkarian), não compactuam com a atitude do filho. A mãe, especialmente, interessa-se pela sorte de Gilles e passa a visitá-lo no hospital, construindo uma relação com a vítima, apesar da natural resistência inicial dele e de sua própria família. O que ela mais quer é que o filho, que fugiu para o Líbano, possa pedir perdão a Gilles.
 
Eventualmente um pouco didático – falta um pouco de organicidade aqui e ali -, o filme mantém o interesse pela grande honestidade que demonstra na construção das relações entre os personagens. Sem nenhuma camada de excesso, Ariane Ascaride é o centro emocional da história, compondo uma mulher comum que leva os valores em que acredita às últimas consequências, traçando uma peculiar interligação entre questões políticas e humanas.
O componente melodramático desta opção narrativa, que pode fazer os mais politizados torcerem o nariz, não deixa de ser uma isca irresistível à identificação do público. Ainda que não se seja armênio, todo mundo pode colocar-se no lugar destes pais, ou da vítima, ou até mesmo do autor do atentado, que não é nenhum monstro, ainda que tenha tomado uma decisão equivocada. De maneira inteligente, Guédiguian encena este diálogo, virtualmente impossível na vida real, entre os muitos lados desta questão: afinal, é legítimo reagir à injustiça com o uso da força?
 
Gurriaran, em cujo livro o enredo se inspira, na verdade viveu uma história parecida. Jornalista, acidentalmente foi a vítima de um atentado ocorrido em Madri, pelo Exército Secreto Armênio pela Libertação da Armênia. E, por iniciativa própria, quis conhecer os perpetradores, viajando ao Líbano para isso, o que resultou em seu livro, La Bomba.  
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