Em 2000, o judeu argentino Nicolás Avruj viaja a Israel para visitar um primo, que estudava lá. Mas há um desencontro entre os dois e Nicolás decide viajar com sua câmera. Ele convive com judeus ortodoxos mas também decide conhecer os territórios palestinos. Lá, sem revelar sua condição de judeu, ele vê a questão palestina sob outro ponto de vista.
- Por Neusa Barbosa
- 05/05/2016
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Nicolás Avruj tinha 25 anos quando partiu da Argentina para Israel, onde iria visitar um primo. Os dois se desencontraram (o primo estava na Argentina) e ele resolveu ficar por lá e esperá-lo. Assim começa a viagem que deu origem, 15 anos depois, ao documentário Nós, eles e eu, em que o diretor tenta dar conta de tudo aquilo a que assistiu e viveu, entre Israel e territórios palestinos.
Neto de uma fundadora do movimento Mulheres Argentinas Sionistas, Nicolás não tinha muito clara a sua identidade judaica ao partir. Muito menos tinha formulado um plano de voo para documentar sua experiência. Tudo foi acontecendo mais ou menos ao sabor do acaso, que se torna rico ao incorporar os contrastes dramáticos da permanente tensão entre israelenses e palestinos.
O ano de 2000, quando aconteceu a viagem, foi quando começou a segunda intifada – rebelião que custaria milhares de vidas, muito mais palestinas, mas também de israelenses e estrangeiros. A própria inocência de Nicolás o coloca, imprudentemente, no olho do furacão. Não satisfeito de percorrer Jerusalém e Tel-Aviv, e hospedar-se na casa de um argentino hassídico (ortodoxo), Nicolás atravessa a fronteira, viaja pela Cisjordânia e a Faixa de Gaza. Ali, não menciona sua condição judaica (nem ninguém lhe pergunta) e hospeda-se na casa de um jovem palestino, Hamed.
A experiência, incomum em tempos turbulentos, certamente oferece a chance para que o viajante argentino enxergue a disputa local por outro ângulo. Ele conversa com um jovem palestino que lhe descreve as torturas que sofreu ao ser preso sem motivo. A pobreza onipresente, os bombardeios israelenses e a visão dos assentamentos judaicos encravados em território palestino são evidentes por si. Assim como o virtual confinamento dos palestinos a um estreito terreno, do que é símbolo a situação de uma família de camponeses, cuja terra foi quase toda tomada e suas 200 árvores, que o pai da família plantara, derrubadas.
Nicolás é testemunha também do ódio, cotidianamente cultivado, nos corações palestinos. Como o assustador programa infantil da TV palestina – que é mostrado por nacionalistas judeus, em Israel -, retratando crianças de 8 e 9 anos entoando músicas em que se fala de “marchas com guerreiros da jihad” e “jogar israelenses ao mar”. Hamed, seu anfitrião, também não hesita em afirmar que todos os judeus são maus.
É possível pensar, em determinado momento, se algum limite ético não foi ultrapassado. Afinal, Hamed e outros não sabiam todos os detalhes da filmagem, começando pela identidade judaica do cineasta (ainda que, naquela altura, nem ele mesmo soubesse o que faria de suas imagens e, certamente, correria riscos se se revelasse ali). Portanto, esses personagens não deram autorização para o uso de suas imagens. Feita a ressalva, o cineasta passou 15 anos refletindo sobre o tom que daria ao material, preocupando-se em respeitar e em não tomar partido de nenhum dos dois lados. Avruj deixa clara sua ideia de que é preciso pensar em algum tipo de acordo de paz, de conciliação dos interesses em disputa, por mais que isso seja, evidentemente, dificílimo.
O documentário também tece um arco interessante no sentido de assumir-se como uma viagem de autodescoberta, da qual fez parte reconhecer as próprias raízes judaicas. Deste modo, podem ser perdoadas algumas falhas juvenis na captação do material. Claramente, é o olhar de um forasteiro, que não aprofunda muitos pontos. Mas não houve qualquer má-fé.
