Indicada ao Oscar de filme estrangeiro 2017, a produção alemã Toni Erdmann, da diretora Maren Ade, estrutura-se em torno de uma personagem feminina forte (interpretada com brio pela atriz Sandra Hüller) e uma discussão bastante séria sobre o desenraizado modelo capitalista de nossos dias.
Neste que é o terceiro longa da diretora (o segundo, Todos os Outros, ganhou dois prêmios em Berlim 2009, Grande Prêmio do Júri e melhor atriz), o núcleo apóia-se igualmente numa difícil relação entre pai, Winfried (Peter Simonischek), e filha, Ines (Sandra Hüller). Os dois vivem distantes, até fisicamente. Ela mudou-se para Bucareste, onde se tornou uma executiva durona, especializada em operações de outsourcing e seus decorrentes cortes drásticos de custos e pessoal.
Ines mora sozinha, não tem realmente amigos, somente relações profissionais. Suas companhias mais frequentes são duas outras mulheres, estrangeiras como ela. A moça é o próprio símbolo do capitalismo sem raízes, que viaja de país a país, seguindo conveniências alheias aos moradores de cada local, que devem, assim como seus governos, lidar com a terra arrasada e o desemprego que sobram após a passagem dessas multinacionais, como aquela em que trabalha Ines.
Só que seu pai está decidido a encarnar tudo o que ela suprimiu em sua vida, ou seja, o afeto, a diversão, a contradição. Ele a visita de surpresa em Bucareste e torna-se um fator de irritação a cada passo que ela dá, intrometendo-se em seus encontros profissionais e mesmo pessoais.
No habilidoso roteiro, também de autoria da diretora, criam-se situações surpreendentes a cada passo desta dupla em conflito – especialmente a partir de um certo ponto em que o pai decide assumir um alter ego meio palhaço, autointitulado “Toni Erdmann”, fazendo um contraponto ao comportamento frio da filha com uma peruca ridícula, dentes falsos e observações inesperadas.
Há situações absolutamente impagáveis – a festa de aniversário nudista é o melhor exemplo -, que permitem à diretora explorar alguns caminhos do absurdo mundo contemporâneo com uma ironia ferina, à qual não falta algum calor por baixo do rigor germânico.
Indicado ao Globo de Ouro, Bafta e acumulando diversos prêmios da crítica internacional – começando pela Fipresci, em Cannes 2016 -, o filme alemão já teve anunciado seu remake norte-americano, com Jack Nicholson e Kristen Wiig nos papeis principais. Veremos o que Hollywood vai fazer com esta história reflexiva e cômica, sem perder a ternura.
