18/06/2026
Drama

Leila

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A condição feminina está em primeiro plano neste drama do iraniano Dariush Mehrjui, um espelho vivo e pulsante daquele que é o principal conflito da sociedade daquele país, hoje: a luta aberta entre modernidade e tradição.

Leila (Leila Hatami) é uma jovem moderna, intelectualizada, de uma família de classe média e liberal. Pela porta sempre aberta a amigos, entra Reza (Ali Mosaffa), rico herdeiro de um empresário que se apaixona pela moça. Os dois se casam e têm um relacionamento apaixonado e tranqüilo, até o dia em que a mulher descobre que não poderá ter filhos.

A tradição cobra seu preço na figura da sogra (Mohammad Reza Sharifinia). Reza é seu único filho homem e, como tal, deve ter descendência que garanta a continuidade de seu nome. A sogra exige que ele tome uma segunda esposa, como permite a lei islâmica, embora o costume tenha sido cada vez mais deixado de lado numa sociedade que visivelmente se ocidentaliza, apesar de algumas pendências com os EUA.

O aspecto mais perverso da cobrança da sogra está em exercer pressão implacável não sobre Reza, que insiste que não precisa de filhos e em seu amor pela mulher. As pressões da matriarca voltam-se para a nora, a quem quer a todo custo convencer de que o marido também deseja esta segunda mulher para dar-lhe um filho e que ela, Leila, não só deve aceitar a situação como vencer a resistência dele. Colocada nesta camisa-de-força infernal, Leila reage com uma passividade exasperante e fica no centro de um debate entre todos os lados - nem mesmo as irmãs de Reza aceitam a imposição a Leila, muito menos a família dela.

Uma novidade, em termos do cinema iraniano que se conhece no Brasil, pelo menos, é que o filme abre espaço aos pensamentos íntimos da protagonista, numa jornada existencial que lembra momentos da Nouvelle Vague. É um drama no seu sentido estrito, que contrasta muito com a leveza de outras produções, como O Balão Branco e O Jarro, que retiravam seu encanto de cenas cotidianas e conduzidas por crianças. Também não tem sido tão comum cineastas do Irã retratarem personagens das classes mais ricas, como acontece aqui, o que serve para avaliar como a ocidentalização tem penetrado os usos, costumes, roupas e modo de vida, pelo menos nas grandes cidades. Mas é a discussão central que interessa. As mulheres que aparecem no filme têm voz ativa e suas relações com os homens são mais francas do que em geral as platéias ocidentais esperariam, em relação ao Irã. Pode até ser um retrato adocicado destas relações. Mas o fato de que o cinema iraniano tenha condições de abordar este tipo de discussão é o retrato mais eloqüente de quanto as mudanças naquele país avançaram nos últimos tempos.

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