Quando a história começa, Delphine não passa de uma menina solitária, prensada entre o silêncio em casa, por conta da incompreensão dos pais, e a inadequação na escola. Um dia encontra sua alma gêma na amiga Olivia (Lou Doillon), mocinha alta, magra e sempre usando um longo cabelo rastafári loiro.
Nesta fase em que os hormônios fervem, as duas vivem suas primeiras noções de amor. Mais desinibida, Olivia experimenta o sexo com alguns rapazes. Retraída, Delphine acaba apaixonando-se pelo volúvel Laurent.
Mistura de Alain Delon e James Dean, Laurent é belo e perverso na mesma medida - um símbolo justo da verdadeira escravidão ao culto da beleza vivido na sociedade moderna, meio que hipnotizada por esta fixação adolescente no corpo. Consciente de seu fascínio, Laurent avança nos limites a princípio reduzidos da intimidade de Delphine, até submetê-la à suprema sujeição - convence-a de que a única forma de conseguirem dinheiro para uma sonhada viagem à Jamaica será cobrando pelo sexo oral que a garota fará com os colegas da escola. A Laurent cabendo o papel de cafetão.
Stevenin impressionou a Academia Francesa, a ponto de ganhar uma indicação como melhor jovem ator em 99. Mas seu desempenho, que é bom, fica perdido num filme que não é. O trabalho do diretor Ameris pretende compor um retrato da jovem classe média francesa. Mas, ao abrir uma série de rumos, consegue perder-se em todos, diluindo a força do escândalo que procurou produzir. Chegar ao nível de um Jean Genet ou um Nelson Rodrigues, capazes de extrair densidade e poesia no submundo dos sentimentos, não é mesmo para qualquer um. (N. B.)
