Era como uma lenda o tal filme-testamento do cineasta português Manoel de Oliveira, que, supostamente, foi filmado no início dos anos de 1980, e só seria mostrado depois de sua morte. Eis que, quando ele morreu em abril de 2015, aos 106 anos, revelou-se verdadeira a existência desse documentário, feito em 1982, quando ele tinha 73 anos. O filme é o réquiem para uma casa, no Porto, onde ele morou com sua mulher por pouco mais de 40 anos, e precisou ser vendida para saldar dívidas de uma fábrica que herdou do pai.
Com diálogos de Agustina Bessa-Luís (escritora com quem trabalhou em filmes como Vale Abraão e O Princípio da Incerteza), e narrados por Teresa Madruga e Diogo Dória, Visita ou Memórias e Confissões é um documentário impressionista e pessoal sobre o fim de uma era, a necessidade de seguir em frente e todo um arquivo envolvido nesse processo.
É também uma meditação sobre o que faz de uma casa o que ela é – mais do que a construção, as relações pessoais e familiares que se estabelecem em seu interior. É também o resgate da vida e trajetória de Manoel, além de uma investigação sobre a relação dele com o cinema.
Ao mesmo tempo, pelo viés pessoal, o cineasta resgata a história de Portugal, especialmente ao narrar o episódio de sua prisão durante a ditadura de Salazar. Ele havia terminado seu primeiro longa, Aniki Bobó (1942), quando sua casa foi invadida pela polícia, e ele, levado. Relembra também o 25 de abril e as dificuldades financeiras – “mas estas não me afetaram a alma”. O diretor faz uma obra ímpar, mas, ao mesmo tempo, tão parecida com seus outros filmes. E é aí que reside muito do encanto de Visita ou Memórias e Confissões.
