Em um roteiro com colaboração da italiana Barbara Alberti (de Um Sonho de Amor), Argento elabora a história de Aria (Giulia Salerno), uma menina de 9 anos em busca de afeto. Em Roma, durante os anos de 1980, a protagonista vive perdida em relação ao seu entorno. Tendo apenas a sua amiga Angelica (Alice Pea) como confidente, se vê marginalizada, seja na escola, seja em casa.
Seus pais (Charlotte Gainsbourg e Gabriel Garko) – ela uma musicista, ele, um ator famoso –
O providencial divórcio piora ainda mais a relação dos pais com a menina, que, como uma bola de pingue-pongue, quica entre uma e outra casa sem um lar para chamar de seu. O infortúnio continua quando Angelica resolve se bandear para o lado das “populares” da escola, deixando Aria definitivamente só – exceto por seu gato preto, Dac.
Asia Argento exagera, intencionalmente, nas adversidades de sua protagonista, mas ela tem um ponto a discutir com essa decisão: como todos essas vivências afetam a formação da menina e sua própria fantasia. Não por acaso, todas as vezes em que usa bonecos para brincar de namoro, simula um estupro. Para ela, violência é a marca, enfim, das relações (desiguais) entre homens e mulheres.
Nessa difícil situação, a jovem atriz Giulia Salerno se sobressai, graças também ao trabalho da própria diretora, que há mais de uma década dá aulas de interpretação para crianças, filantropicamente. Mas é a atuação de Charlotte Gainsbourg que alimenta o conflito, ao lado de Gabriel Garko, que seria um alívio cômico caso não fosse desprezível.
Muito se fala que o enredo tem um pouco de biográfico, já que Asia, filha do diretor de cinema Dario Argento e da atriz Daria Nicolodi, poderia ter sido negligenciada por causa da carreira artística dos pais. Mais: não apenas o nome do meio da diretora é Aria, como a protagonista e ela compartilhariam a mesma idade (nasceu em 1975). Mas Asia afirmou reiteradamente que se inspirou em histórias que presenciou, mas não viveu.
De todo modo, em um dos pontos Incompreendida é universal, quando Asia Argento cita o Papa João XXIII (1881 – 1963): “Quando você voltar para casa, encontrará seus filhos: dê carinho a eles”. Pelo que se vê na tela, trata-se de um alerta.
