Janis – Little Girl Blue é o tipo do documentário que não só respeita sua personagem como amplia os modos de olhar para ela. Não é tarefa simples, ainda mais em se tratando de um ícone do rock, folk e blues que morreu tragicamente cedo e sobre a qual parece que quase tudo já foi dito, 46 anos após sua morte.
Dirigido por Amy J. Berg – indicada ao Oscar em 2007 pelo doc Livrai-nos do Mal – e produzido ao longo de sete anos, o filme ultrapassa o risco de tornar-se apenas mais uma investida em torno dos notórios e inevitáveis fantasmas da cantora Janis Joplin (1943-1970), como a timidez, a inadequação, o bullying, a dependência química e especialmente uma assustadora solidão, para concretizar uma serena e afetuosa reconstituição de seus passos. Para isso, toma como guias suas cartas pessoais, além dos habituais testemunhos de parentes, amigos, colegas e materiais de arquivo.
Entre esses materiais, figuram imagens raras de um documentário nunca concluído pelo mítico D.A. Pennebaker, que tinha como foco a banda Big Brother & Holding Company, da qual Janis foi vocalista e estrela inconteste. Esses e outros registros de suas apresentações ao vivo, como no Festival de Monterey 1967, cantando Ball and Chain, dão conta do magnetismo impressionante da menina tímida de Port Arthur, Texas, quando subia num palco e empunhava sua voz rascante, primal, única.
Havia muito mais força em sua aparente fragilidade do que ela mesma sabia, mas isso ela só sintonizava ao cantar. Ao longo da vida, ela sofreu bullying por ser a favor da integração racial numa cidade que tinha um núcleo da Ku Klux Kan, foi uma mulher sozinha num mundo de machos e desafiou convenções sobre sexualidade, figurino e o bom comportamento esperado de mocinhas brancas protestantes texanas de sua época.
Apesar de tudo, era uma rebelde sensível. Incidentes lamentáveis, como a votação de uma fraternidade de universitários da Universidade do Texas que a elegeu “o homem mais feio” ou não ter sido convidada para o baile de formatura do ensino médio, a machucaram mais fundo do que ela gostava de admitir. Essa fragilidade emocional certamente esteve na base de sua dependência de drogas, que terminou custando sua vida justamente numa fase em que ela estava, mais uma vez, tentando livrar-se do vício de heroína.
Amy Berg consegue, no entanto, fazer com que essa morte não a defina e sim o que ela foi capaz de realizar nestes escassos 27 anos, formando-se por seus próprios recursos, inspirada em Bob Dylan, Odetta, Bessie Smith, Otis Redding e Aretha Franklin, mas sendo ela mesma no final de todas essas fontes em que bebeu. Ela criou um estilo próprio de interpretação, figurino e adereços, sendo feminista ao seu modo, sobrevivendo aos seus próprios altos e baixos e colocando tudo isso nas canções que a imortalizaram – como Piece of my heart e Me and Bobby McGee, hit country que ela reinventou em seu álbum póstumo, Pearl. Que deu apenas uma medida do quanto a mítica cantora ruiva ainda podia ter feito depois.
O filme menciona também a viagem que Janis fez ao Brasil em 1970, passando férias no Rio, onde assistiu na desfiles de escolas de samba no Carnaval, deu canjas em pequenas boates, fez topless na praia da Macumba e conheceu o compatriota David Niehaus – mais um de seus grandes amores frustrados.
