Nascido no Uruguai, mas radicado no México, o cineasta Rodrigo Plá parece ser muito adepto do conceito de sutileza. Seja no seu primeiro longa Zona do Crime, ou no seu mais recente, O Monstro de Mil Cabeças, uma bem-vinda crítica social é construída, muitas vezes, de forma pouco sutil. Nos dois filmes, basicamente, ele escolhe um tema social explicitando-o pelo viés de classe e faz o seu discurso. Ele tem muito a dizer e o que diz é bastante válido, mas talvez fosse mais eficiente se fizesse com menos obviedade.
Não é nada difícil criar simpatia com uma protagonista, Sonia (Jana Raluy), que luta contra um sistema de saúde privado corrupto e negligente. Seu marido tem um câncer e surge uma possiblidade de tratamento. Quando a empresa se nega a bancá-lo, ela tem seu dia de fúria e começa a resolver o problema com suas próprias mãos.
Fora esse ponto de partida, pouco sabemos sobre a família. Percebe-se que são de classe média, mas sem muitos recursos - e o retrato de classe é algo bastante importante aqui, pois é o que dá o tom à narrativa. Numa sexta-feira, Sonia passa horas na sala de espera da agência para falar com Dr. Villalba (Hugo Albores), médico responsável que, supostamente, poderia autorizar o tratamento.
As coisas não saem conforme o esperado e, pouco depois, o que temos é Sonia, com seu filho adolescente Dario (Sebastian Aguirre Boeda), apontando uma semiautomática para o médico e sua mulher na casa dele. O que vem depois não deve ser contado pois é exatamente o suspense do filme e o "monstro de mil cabeças" do título, que resume uma escalada sem fim de negligência e ganância. Corta-se uma cabeça e ainda há várias a serem destruídas.
Ao mesmo tempo, ouve-se testemunhos do julgamento de Sonia. Esse artifício, na verdade, mais atrapalha do que ajuda. Primeiro, sabemos que ela continua viva, que foi presa e que está sendo julgada pelos crimes que cometeu – embora esses sejam revelados aos poucos. Esses novos pontos de vista nada acrescentam, são redundantes ao narrar exatamente aquilo que se vê na tela. Não jogam uma luz sobre as contradições inerentes da protagonista.
Trabalhando com o diretor de fotografia Odei Zabaleta, Plá tem a estranha mania de mostrar sem realmente mostrar. A câmera, em vários momentos, está apontada para onde a ação ocorre, mas o centro está desfocado ou longe demais para se ver o que está acontecendo. Entende-se o que ele quer transmitir com isso: a inexatidão dos testemunhos ou de como somos incapazes de entender o drama de cada outro. Ainda assim, para um filme que tenta dizer tanto sobre a corrupção e a ganância, exageros visuais ou narrativos só enfraquecem o seu argumento.
