Parecia improvável que, naquele ano de 1978, em plena ditadura, fosse criado um jornal integrado por homossexuais assumidos, dispostos a colocar em discussão a homofobia, a liberdade sexual e muito mais. Mas foi exatamente isso o que aconteceu em abril daquele ano, com a fundação do Lampião da Esquina, publicação libertária destinada a fazer história e não apenas em termos da temática sexual.
Fundado por intelectuais do Rio e São Paulo, como João Antonio Mascarenhas, Aguinaldo Silva, Glauco Matoso, Peter Fry, Darcy Penteado, Jean-Claude Bernardet e João Silvério Trevisan, entre outros, o jornal tinha como modelo uma publicação de San Francisco, o Gay Sunshine, de Winston Leyland. Mas rapidamente adquiriu personalidade e cor locais, tratando de temas polêmicos, como prostituição masculina e representação dos gays em humorísticos de TV. Mas também saiu do nicho, discutindo temas que a grande imprensa da época costumava evitar, como racismo, drogas e machismo.
Por conta disso, não faltaram problemas de distribuição – muitas bancas recusavam-se a expor um jornal que exibia manchetes assim: "A volta do esquadrão mata‐bicha", "Repressão: essa ninguém transa", "Louca e muito da baratinada" e "Fortíssimo babado". Sem contar que a censura, ainda viva e forte, fazia seus estragos mandando recolhê-lo.
Ao longo de suas 37 edições – durou até 1981 -, o jornal inscreveu um capítulo importante na história da chamada “imprensa nanica”, que foi fundamental para rachar o unilateralismo da grande imprensa e abrir brechas para discussões mais abertas de todos os assuntos, numa sociedade que lutava pela redemocratização. O jornal acabou, afinal, por dificuldades econômicas e também pela divisão entre seus membros, em torno de ligar-se mais ou não ao ativismo da causa gay. Mas seu legado foi inegavelmente positivo. Se há uma maior liberdade de tratar destes temas hoje, o Lampião teve sua parte nisso, como deixa muito claro o bom documentário dirigido por Lívia Perez.
