O epicentro emocional está na figura paterna, representada por Tolyan (Vladimir Mushkov), um ladrão que usa uniforme militar, mas de quem não se sabe ao certo quase nada - exceto que, num certo dia de 1952, tomou um trem, seduziu uma jovem viúva (Ekaterina Rednikova) e marcou com fogo seu lugar no coração de seu filho (interpretado com rara bravura pelo pequeno Misha Philipchuk).
Mas este enredo pode ser lido, também, como uma parábola do período estalinista. Passa-se no duríssimo pós-Guerra, quando retratos do ditador Josef Stálin não faltavam em nenhum cômodo, do mais rico ao mais modesto apartamento coletivo, e pareciam pairar sobre todos os desequilíbrios do modelo estatal. Tolyan, o ladrão, pode até ser visto como símbolo daquele Stálin que era, aos olhos do povo, a um só tempo carismático e assustador, pela possibilidade sempre próxima do uso da força - exatamente como o pequeno Sanya (Misha) encara o pai postiço.
Filho de um soldado que morreu pouco depois da II Guerra, Sanya nunca conheceu o verdadeiro pai. Costuma enxergá-lo como uma visão, sempre usando um uniforme e acenando para ele - uma espécie de anjo da guarda. A fantasia preenche a necessidade do pai ausente, mas será aos poucos substituída pela figura ambivalente de Tolyan.
Usando um vistoso uniforme de capitão do Exército Vermelho, Tolyan convence o menino de que é filho de Stálin - uma nova lenda bem mais atraente do que a figura fantasmagórica do pai verdadeiro. Parte do domínio exercido por este estranho sobre a criança, porém, está menos em suas histórias fantásticas do que em sua violência. Com ele, Sanya compreende o sentido concreto de força bruta. E o fato de que o diretor tenha encontrado neste pequeno ator um intérprete tão expressivo é um dos grandes trunfos do filme que, afinal, é carregado pelos olhos do narrador-criança.
O terceiro elemento, não menos importante, é o da mãe, Katya. Figura frágil colhida no turbilhão de tempos difíceis, ela encontra no estranho uma aparente segurança, mas no fundo os perigos da paixão e de uma arriscada forma de sobrevivência. É o ponto de contato entre o homem e o menino, o fio condutor que amarra o passado de um ao futuro do outro. Toda carne, osso e coração, num determinado momento Katya atinge a lucidez de admitir que pode abandonar Tolyan - mas reconhece que nunca amará alguém mais do que a ele. O fato de que ela divida com as duas figuras masculinas um amor tão ambíguo sustenta a humanidade do relato.
