17/08/2026
Comédia Drama

O Evangelho das Maravilhas

post-ex_7
Com uma obra que pouco freqüentou as salas brasileiras, exceto por mostras de arte, o diretor mexicano Arturo Ripstein mantém vivo o espírito iconoclasta e anticlerical do cineasta Luis Buñuel. Não é por acaso. Ripstein começou na profissão aos 19 anos como assistente do mestre espanhol em uma de suas obras-primas, O Anjo Exterminador (62). A amizade durou até a morte de Buñuel, em 83, e deixou como herança para Ripstein o gosto pelo macabro, pelo amor louco, a preocupação social e a total irreverência diante das religiões.

Nesta co-produção entre Espanha, México e Argentina, exibida na mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes/98, a história discute o fanatismo e a manipulação em torno da religião. Num local extremamente pobre e isolado do México, uma pregadora, Mama Dorita (Katy Jurado), é a grande líder espiritual. Seu marido é um ex-padre espanhol, fã dos filmes hollywoodianos bíblicos, chamado de Papa Basílio (Francisco Rabal, veterano dos filmes de Buñuel). No povoado, todos são acolhidos sem reservas, inclusive uma prostituta, Nélida (Carolina Papaleo), e uma menina de rua, Tomasa (Edwarda Gurrola).

Nesta atmosfera sem perspectivas, Dorita, Basílio e o povo esperam o final dos tempos. Quando Dorita sente que está perto de morrer, escolhe sua sucessora, que deve dar à luz a um novo Messias. É a menina Tomasa, que faz suas pregações usando um videogame, enquanto Dorita usava um dominó - um bom exemplo do humor ácido praticado por Ripstein. Uma vez no poder, ela reverte as expectativas. Proclama-se a Prostituta da Babilônia e coloca-se como única mulher que pode ter relações sexuais e que deve mantê-las com todos os homens do lugarejo.

Por incrível que pareça, a história baseia-se em fatos reais, ocorridos no México nos anos 70. O filme registra uma nova parceria entre o diretor Ripstein e sua mulher e roteirista Paz Alicia Garciadiego, que escreveu as histórias de seus trabalhos mais elogiados, caso de Principio y Fin (94) e especialmente Profundo Carmesí (96) - que recebeu menção honrosa no Festival de Sundance/97. Num comentário irônico sobre o sucesso de sua associação com a mulher, o diretor costuma dizer que ela, como católica, entra com o pecado, enquanto ele, como judeu, contribui com a culpa. (N.B.)

post