Zelito busca desvendar o homem por trás do músico - e a grandeza do segundo nem sempre corresponde à do primeiro, como bem concordaria a primeira mulher de Villa, a amargurada Lucília (Ana Beatriz Nogueira), que ele abandonou na maturidade por uma assistente 30 anos mais jovem (Letícia Spiller) e sempre se negou a conceder-lhe o desquite. A contradição, no entanto, parece secundária diante da música grandiosa do autor dos Choros e das Bachianas Brasileiras, incompreendido em sua época e criador de casos até com o pianista Arthur Rubinstein (Emílio de Mello), um dos primeiros a reconhecer sua originalidade.
Violão, violoncelo, clarinete, nada disso foi mistério para o músico carioca, que tocou em orquestras de cinema e de circo e percorreu o interior do País com tocadores mambembes, ouvindo o vento e os pássaros nos momentos de descanso. Inimigo dos "sobrenomes e dos popopôs", como gostava de dizer, Villa desafiou os padrões do gosto de sua época e pagou caro por isso, com o fracasso cercando seu início profissional. No Brasil e fora dele, as primeiras décadas do século ainda não tinham tantos ouvidos preparados assim para ouvir as suas composições, que mesclavam as sonoridades dos clássicos europeus com a música popular das ruas brasileiras, que desde menino Villa soubera absorver.
Ironicamente, apenas o governo autoritário de Getúlio Vargas foi capaz de dar-lhe um emprego estável num projeto educacional, simpatizando com o inegável nacionalismo do maestro. Mas isto garantiu-lhe também a pecha de "fundo musical do Estado Novo", atribuindo-lhe um colaboracionismo que, na verdade, não se comprova. Maior do que a polêmica e até do que o próprio filme, reafirma-se a grandeza da música de Villa-Lobos, com uma edição de som feita em Los Angeles por Joe Moss, que mixou discos para Tom Jobim e João Gilberto.