Noha, Soukaina e Randa são três jovens prostitutas em Marrakech. Elas dividem um apartamento e contratam serviços de um motorista-segurança, responsável por levá-las a boates e festas, frequentadas por turistas sauditas e europeus. Num cotidiano abalado por preconceitos, violência e machismo, elas sonham com outra vida.
- Por Neusa Barbosa
- 03/11/2016
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Atração da Quinzena dos Realizadores de Cannes 2015, a coprodução franco-marroquina Much Loved, de Nabil Ayouch, é um surpreendente filme-denúncia sobre a prostituição no Marrocos.
Por sua crueza no retrato, ainda que ficcional, da violência contra as prostitutas e da hipocrisia da sociedade muçulmana local diante do turismo sexual de estrangeiros, como os sauditas, o filme acabou censurado em seu país, sob a acusação de denegrir sua imagem.
Como sempre, a censura é burra. Em que pese o vocabulário chulo de suas protagonistas e cenas de nudez e sexo – isto sim raridade num filme dessa parte do mundo, nada sugere uma intenção de desmoralização gratuita. O que o roteiro, também assinado por Ayouch, destaca em primeiro lugar é a simpatia pelas desventuras de um trio de mulheres, Noha (Loubna Abidar), Soukaina (Halima Karaouane) e Randa (Asmaa Lazrak), que vive de programas e divide um apartamento e a proteção de um motorista, Said (Abdellah Didane).
O filme não se furta a humanizá-las, especialmente Noha, a mais velha delas, cuja história é mais desenvolvida. A hipocrisia da sociedade é escancarada no segmento que a mostra em visita à sua mãe, que cria seu filho pequeno, e não demonstra qualquer sinal de carinho pela filha, embora lhe exija mais dinheiro (claramente, sabendo a forma como é obtido).
Soukaina, por sua vez, será objeto de violência, num episódio envolvendo um cliente com problemas com a própria sexualidade. O homossexualismo também aparece na história, através da aventura de Randa com uma mulher mais velha (Camélia Montassere) e de travestis prostituindo-se na noite.
Falta ao filme um maior desenvolvimento da história pessoal dessas coadjuvantes e um bocado de sutileza, é verdade, repetindo-se em excesso as cenas de festas que as moças frequentam e satisfazem aos desejos de homens ricos e abusados – e também a cena em que se sugere a prática de pedofilia.
Apenas por seu tema difícil, no entanto, a produção poderá ser rejeitada por uma parcela do público, embora seja nítida sua intenção de denunciar uma situação social precária em seu país de origem, além do machismo e da corrupção policial – este, retratado em outra cena forte, numa delegacia. Episódios que, finalmente, remetem à opressão feminina no mundo que se repete, infelizmente, em muitos outros países.
