É uma radiografia assim, humana, doída, intensa, radical, a que o diretor ítalo-americano de 57 anos realiza aqui, no drama Vivendo no Limite, um raro exemplo de título brasileiro bem colocado num filme. É exatamente essa a condição de alguém como Frank Pierce (Nicolas Cage), um paramédico que ganha a vida prestando o primeiro atendimento a vítimas de acidentes, crimes, doenças crônicas. O cotidiano de Frank é puro pesadelo, cenário que o filme de terror mais sangrento não consegue imitar - corpos despedaçados, pessoas angustiadas no último estertor, malucos que mutilam a si próprios, doidos e abandonados de todo tipo.
O papel é quase uma continuação daquele que o ator interpretou em Cidade dos Anjos. A diferença, aqui, é a impotência humana de Frank, que não é anjo, nem super-homem, como gostaria. Como resultado, ele muitas vezes chega tarde demais e deixa escapar a vida de alguém entre seus dedos, como a de uma jovem asmática, de 18 anos, Rose (Cynthia Roman). O pálido fantasma da moça começa a assombrar todas as suas noites de trabalho e a normalidade de Frank balança perigosamente a cada passeio na ambulância que lhe serve de transporte.
O principal viés na vida do paramédico é a impossibilidade de manter contato humano com quem quer que seja. Seus colegas, afinal, não ficam muito atrás, em anormalidade, de muitas das pessoas que atendem: o violento Tom (Tom Sizemore), o comilão Larry (John Goodman), o religioso Marcus (Ving Rhames, que protagoniza a cena mais engraçada do filme). Um vestígio de relacionamento se esboça entre Frank e a filha de um paciente (Patricia Arquette). Mas é tudo muito frágil e provisório, como a vida num tempo e lugar desses.
Neste filme muito intenso e pessoal, em que Scorsese retoma a parceria com o roteirista Paul Schrader (que fez com ele Taxi Driver, Touro Indomável e A Última Tentação de Cristo), brilha como poucas vezes o estilo deste eterno esnobado do Oscar. Ele nem precisa.
