Desde 1957, o padre alemão Adalbert Heide radicou-se na comunidade xavante de Sangradouro (MT), filmando suas festas e costumes. Um de seus assistentes, o xavante Divino, torna-se cineasta e passa a retratar a comunidade a partir de outro ponto de vista. O documentário alinha semelhanças e contrastes entre os dois amigos.
- Por Neusa Barbosa
- 10/11/2016
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Vencedor dos prêmios de melhor documentário, montagem e trilha sonora no Festival de Brasília 2013, O mestre e o divino, de Tiago Campos, coloca em paralelo não só dois personagens como duas visões de mundo sobre os indígenas – traduzindo o grande objetivo do projeto da ONG Vídeo nas Aldeias, do qual faz parte, que nestes 30 anos gerou cerca de 70 filmes.
De um lado, está o padre alemão Adalbert Heide, salesiano que há quase 60 anos veio para o Mato Grosso, para missão religiosa em Sangradouro. Nestas quase seis décadas, catequizou e alfabetizou xavantes, aprendeu sua língua, organizou projetos agrários e, principalmente, filmou em super-8 suas festas, costumes e a natureza ao redor. Sua integração entre eles valeu-lhe um nome xavante, Tsa Amri (que quer dizer “monte alto”).
De outro lado, está Divino Tserewahu, cineasta xavante, que realiza filmes desde os anos 1990. Educado no extinto internato dos salesianos, Divino aproximou-se do cinema por meio de Adalbert, de quem era assistente nas projeções realizadas pelo padre – mostrando não só filmes locais como atrações internacionais, como o faroeste alemão Winnetou (A lei dos apaches), de 1963, que retrata a amizade entre um caubói germânico e um apache (e que, nas sessões, recebia tradução simultânea do próprio Heide).
O documentário se desenrola nesta dualidade, a partir de pontos de vista separados por épocas e situações distintas. De um lado, o padre europeu, apaixonado pelos trópicos e imbuído do desejo sincero de apresentar Deus aos índios e “educá-los”. De outro, o indígena que, embora cristão, está enraizado na própria cultura e olha suas manifestações de dentro para fora. Sem contar a diferença de geração e de intimidade com a tecnologia. Divino empunha o notebook com naturalidade, enquanto Heide, que tinha jurado nunca usar um computador, finalmente se rende, desconfiado, às novas máquinas para editar o seu caudaloso material, no qual gosta de inserir não só legendas como mensagens educativas.
Antropólogo e cineasta, assistente de direção do contundente Corumbiara (2009), de Vincent Carelli, Tiago Campos explora as contradições deste relacionamento, que é afetuoso e de respeito mútuo, mas não desprovido de conflito. Colocando esta oposição em primeiro plano, o filme permite uma reflexão sobre as mudanças de postura na abordagem à cultura indígena nas últimas décadas, não elaborando, por isso, um retrato sanitizado de seu comportamento. Os contrastes estão ali e, curiosamente, é Heidi quem se preocupa em não mostrar o que chama de “coisas feias”, como o lixo que se acumula em alguns locais da aldeia. Para ele, em seus filmes deve predominar a beleza, inclusive da natureza, que ele retrata com mais disposição do que Divino, focado mais nas pessoas do que nas paisagens.
Mesmo problematizando esta relação, o filme não sataniza o padre, permitindo-lhe expor seus conceitos, que vêm de outro contexto e não podem ser simplesmente descartados sem essa perspectiva. Uma ótima notícia é que o rico acervo original de Heidi, que estava guardado na organização salesiana na Alemanha, agora está à disposição de pesquisadores na Cinemateca Brasileira. Por essas imagens, passa um pouco da história do contato entre brancos e índios do Brasil.
