03/06/2026
Drama

Sieranevada

Uma família reúne-se no apartamento do pai, para lembrar a passagem dos 40 dias de sua morte. À espera de um sacerdote e enquanto se prepara comida em abundância, os membros da família conversam, discutem, riem, se confrontam com seus dramas pessoais e políticos. Na Prime Video.

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O cineasta romeno Cristi Puiu revelou-se um mestre do controle e da construção no drama SieraNevada,  que foi candidato romeno a uma indicação ao Oscar de filme estrangeiro em 2016.
 
Se o título remete a um faroeste, como o próprio diretor já admitiu, este é mais um sintoma da estranheza que o filme procura investigar do que outra coisa. Nada que chegue a ser o “rosebud” de Cidadão Kane, de Orson Welles, portanto, mas ainda assim revelador das intenções de Puiu, conhecido por A morte do sr. Lazarescu (2005), inédito no circuito comercial brasileiro.
 
É mais uma vez em torno de um morto, como naquele filme, que se constrói a história, concentrada claustrofobicamente num tempo e lugar. Praticamente toda a trama passa-se dentro de um apartamento, onde se prepara a cerimônia que marca os 40 dias da morte de um homem, uma tradição na religião ortodoxa romena, no espaço de poucas horas. Espera-se apenas a chegada de um sacerdote, cujo atraso alonga as tensões e expectativas e permite que os dramas se desenrolem, carregados de uma tensão sempre a um passo de explodir.
 
Inevitável lembrar de Luis Buñuel, já que as pessoas da família do morto, ali amontoadas e tropeçando o tempo todo umas nas outras, não saem do mesmo lugar por um bom tempo, como presas por uma força invisível (como em O Anjo Exterminador). E, mesmo preparando comida sem cessar, não conseguem comer, por mais que várias vezes sentem-se à mesa posta (como em O Discreto Charme da Burguesia).
 
Mas, ainda que haja esta referência no horizonte, o fato é que Puiu atualizou o registro e firmou as raízes muito claramente em seu próprio país, identificando em cada um dos membros da família alguma vertente que permite discutir seu lugar no mundo. Ou seja, é uma Romênia encaixada na Europa e na contemporaneidade, povoada por uma classe média em busca de ascensão econômica e consumismo, ainda que debatendo-se com a herança de um passado comunista – sobre a qual alguns dos que o construíram, como a impagável tia Evelina (Tatiana Iekel), têm muito a dizer. A discussão entre a velha senhora militante, ainda comunista, e uma de suas sobrinhas, Sandra (Judith State), aliás, é um dos momentos mais vívidos do filme, por remeter a uma polarização política que, neste momento, varre o mundo. O Brasil que o diga.
 
Ao contemplar também discussões entre outros membros da família sobre o estado do mundo, o 11 de setembro, George W. Bush e a onipresente vigilância eletrônica, o filme embarca em outras direções. Uma delas, a exposição implacável dos mecanismos de funcionamento da família – de todas as famílias do mundo, aliás -, num constante esgarçamento das verdades e mentiras que colidem naquele pequeno espaço.
 
É evidente que há uma construção muito rígida, quase teatral, destas entradas e saídas de atores de quartos e salas – há alguns aposentos onde nunca se entra, nem se vê quem está ali dentro. E o olhar solto sobre tudo isso evoca o do morto, como um invisível observador do caos que se instalou após sua passagem. Ou até o olhar do diretor, simplesmente, que está perto demais de tudo o que aborda para ter distanciamento, assim como cada um de seus personagens. Ou seja, estão todos imersos no cotidiano, na vida, como qualquer um, dentro e fora do filme.
 
Há, nesse caos, algo de exasperante – até  porque SieraNevada dura praticamente três horas. E nessa contradição está a força do que se vê. Do público, no entanto, se exige imersão para aproveitar esta pequena e instigante temporada no inferno.
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