O coreano O lamento traz praticamente o pacote completo de subgêneros de suspense e terror – crimes misteriosos, possessão satânica, rituais xamânicos e demoníacos, exorcismo e o demônio em pessoa. Escrito e dirigido por Na Hong-jin (O Caçador), como os demais longas dele, não é dado a sutilezas. Pelo contrário, tudo é exagerado a ponto de chegar bem perto do humor pastelão (há uma cena digna de paródias como Todo Mundo em Pânico) e até do kitsch. Ainda assim, tudo funciona muito bem.
Com 156 minutos, esse é um épico que cumpre suas aspirações e promessas mergulhando sem medo nas entranhas do horror psicológico e físico. Não é um filme para os facilmente impressionáveis, a bem da verdade. A epígrafe do filme vem do Evangelho segundo Lucas, quando se comenta sobre a ressurreição de Cristo, que reencontra seus devotos, impressionados com a sua volta, e diz: “Por que estão perturbados e por que se levantam dúvidas em seus corações?”. É nessa chave – da descrença no que se vê – que o filme trabalha o tempo todo.
O protagonista é um policial de um pequeno vilarejo rural. Ele se chama Jong-gu (Kwak Do-won) e é totalmente confuso e atrapalhado, além de um tanto medroso – bem distante da figura do herói. O filme começa com ele acordando assustado e recebendo a notícia de um crime horrendo. Ainda assim, ele encontra tempo para tomar café da manhã com a mulher (Jang So-yeon) e a filha pequena, (Hwan-hee Kim). A cena do crime, que ele encontra depois, envolve um assassino alucinado e cheio de feridas pelo corpo, e uma vítima impressionante.
Esse é só o primeiro dos vários crimes que acontecerão sempre nos mesmos moldes, que começaram depois da chegada de um japonês (Jun Kunimura, de Kill Bill), o que faz suspeitas caírem sobre ele, especialmente depois que o policial e seu parceiro encontram, num quarto na casa do estrangeiro, fotos de vítimas, velas e afins, remetendo a uma espécie de ritual macabro.
Jong-gu, no entanto, fica ainda mais preocupado quando sua filha começa a desenvolver feridas na pele, ter alucinações e um comportamento estranho. Quando a medicina parece não dar conta, ele é convencido a contratar um xamã (Hwang Jung-min) que promove um ritual a fim de livrar a menina da possessão.
Isso é só metade do filme – uma montanha russa coreana de cenas impressionantes pela surpreendente força visual (o ritual xamânico é uma delas) ou pelo bizarro (seja pelo lado do terror/suspense ou da comédia). Filmes sobre questões sobrenaturais são um território livre, cada cineasta faz ao seu estilo (alguns até fazem bem), e o gosto de Na é bem peculiar. Ele esgarça até quase o momento em que rompe com a sua coerência interna (em alguns até chega a romper), mas faz tudo com tanta sagacidade que é impossível não ficar se perguntando o que virá na cena seguinte.
O terror provavelmente é o gênero que mais bem figura algum mal-estar histórico. Em O lamento, feridas envolvendo Coreia e Japão dão as caras na dubiedade do personagem japonês – se ele é o demônio ou um anjo é uma questão durante boa parte do filme. E, a julgar pela conclusão, são feridas profundas que custarão a cicatrizar.
