04/06/2026
Drama

A família Dionti

Josué é um pai que cria sozinho dois filhos adolescentes, Kelton e Serino, depois que a mulher literalmente evaporou, como água, como uma nuvem. Este destino insólito ameaça também o filho caçula, Kelton, quando este se apaixona por uma jovem forasteira, Sofia.

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A Família Dionti, de Allan Minas, adentra um território que mistura poesia, realismo mágico, cultura popular e o universo adolescente, ainda que não seja, a rigor, um filme voltado exclusivamente ao público infanto-juvenil.
 
As admirações literárias deste diretor carioca de primeira viagem na ficção (em 2010, realizou o documentário A Morte Inventada) saltam aos olhos a cada passo, tanto no desenrolar do roteiro, de sua autoria – e Minas também é escritor – como nas inspirações poéticas visíveis nos diálogos, de Manoel de Barros a Guimarães Rosa.
 
Filmado ao redor de Cataguases (MG), lugar mítico na história do cinema nacional por conta do pioneiro Humberto Mauro, A Família Dionti tem nos seus protagonistas adolescentes, talentos locais, um de seus trunfos: Murilo Quirino (Kelton), Bernardo Santos (Serino) e Anna Luiza Paes (Sofia). Em torno deles, talentos refinados, como Antonio Edson, do grupo Galpão, Gero Camilo, Bia Bedran, Fernando Bohrer e Neila Tavares.
 
Produzido a partir de um edital carioca de baixíssimo orçamento (R$ 400.000,00), o filme viabilizou-se a partir de uma série de apoios fundamentais, como o do Polo da Zona da Mata mineira, da universidade inglesa National Film and Television, que participou da finalização e efeitos especiais, e de um fundo latino do Festival de Tribeca, Nova York, que rendeu uma soma adicional de US$ 10.000.
 
Saindo desse desafio econômico, o filme revela uma aposta na “diversidade”, palavra usada pelo diretor no debate sobre o filme no Festival de Brasília 2015 (onde ocorreu sua première), sobre como será o trânsito desta história junto a uma plateia adolescente urbana, fixada em telas de celulares e computadores e dominada e dominante na internet – este, um universo ausente da história, ambientada no sertão mineiro, em torno de uma família formada por Josué (Antonio Edson), pai que cria sozinho dois filhos adolescentes, Kelton e Serino, depois que a mulher literalmente evaporou, como água, como uma nuvem. Um destino insólito que ameaça colher também o filho caçula, Kelton, quando este se apaixona por uma jovem forasteira, Sofia.
 
Para o diretor, a história pode se comunicar justamente por “resvalar para o imaginário coletivo”, onde se misturam referências como Mazzaropi, a roça, o realismo mágico. Tudo isso, para o diretor de arte do filme, Oswaldo Lioi, também não dista tanto assim da realidade, pelo contrário. “Esse lugarejo que mostramos no filme existe mesmo, desse jeito. Inclusive há cenários, como o armazém, que nós nem tivemos que mudar quase nada”.
 
Com referências cinematográficas que passam por Marcelo Gomes e Abbas Kiarostami, Allan Minas (nome real) também simpatiza com a ideia da “incompletude”. “Quando a gente compõe um quadro, mostra uma coisa, mas algo fica de fora, solicitando que o espectador complete”. Sem dúvida, o mais importante será acionar os sentimentos da plateia. De repente, A Família Dionti pode ser um estímulo para redespertar um sentimento muito ignorado nos tempos de hoje, o de compartilhar a delicadeza.
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