Animal Político é um filme repleto de intenções. Dois homens sem cabeça andam por uma paisagem desolada. Que planeta é esse? Um grupo de pessoas espera num ponto de ônibus. No meio delas, uma vaca, que, com uma voz masculina, diz se considerar “uma pessoa feliz [...] e simples”, que não precisa de muito luxo, “só o básico mesmo”. Então essa vaca vai à academia, à balada, joga vôlei com adolescentes, participa de um churrasco, mas não come nada. Também vai ao shopping, mas não sai comprando tudo – “umas comprinhas melhoram a autoestima”.
E esse é só o ponto de partida do filme escrito e dirigido pelo pernambucano Tião. A vida da vaca de voz masculina (a do ator Rodrigo Bolzan) vai bem até, que numa festa de Natal, ela tem um sentimento que caracteriza como estranho, uma sensação de vazio. Enfim, a protagonista, ao som de Silver Bells, se dá conta do vazio de sua existência e tenta mudar sua vida.
Essa vaca profana toma novas atitudes, faz ioga, experimenta substâncias para expandir a mente (come cogumelo que nasce do esterco), visita galerias de arte etc. Nada disso parece aplacar a cratera existencial que a consome. É difícil passar os 70 minutos de Animal Político sem ficar pensando nas dificuldades logísticas para fazer o filme – é isso que sobressai. Colocar uma vaca dentro de um shopping, uma academia, uma balada.
Animal Político é um filme que critica o mundo contemporâneo, nossa sociedade de consumismo exagerado, na qual todo mundo acaba, de uma forma ou de outra, sendo gado, guiado pelo consumo, pela busca pela beleza ideal, pela busca do prazer. Nada que já não tenha sido dito pelo cinema. O resultado é um tanto ingênuo – talvez pautado pelo olhar igualmente ingênuo do animal protagonista.
No meio filme, numa espécie de intermezzo, há um curta chamado A Pequena Caucasiana, protagonizado por uma jovem que vive nua isolada numa ilha, depois de um naufrágio. É uma herdeira riquíssima. Seria ela o contraponto à vaquinha ou uma nova etapa na vida do animal ? Vai saber, neste filme tudo pode acontecer - é um mistério.
Animal Político, com toda sua ousadia, é um tanto datado em sua crítica óbvia ao óbvio. É também uma tentativa de provocação – o que é sempre bem-vindo – mas acaba sendo um filme tão apaixonado por si mesmo que é incapaz de enxergar além de um palmo diante do nariz – no caso, um casco diante do focinho –, e perceber que a crítica que faz aqui é um tanto empoeirada.
