A proposta ganha força na interpretação enérgica e antológica de José Dumont, esse ator maiúsculo do cinema, teatro e televisão que até hoje não foi valorizado como merece. Ele encarna com total transparência os dois personagens que conduzem a história, como uma variação do “Médico e o Monstro” dentro de um mesmo tipo de vida.
Deraldo (Dumont) é um poeta de cordel que cai na metrópole em busca de sobrevivência. Cheio de humor e simpatia, aos poucos vai sendo tragado pela pobreza que lhe impõe a falta de oportunidades para alguém de sua condição – operário, peão de obra, faxineiro, é tudo o que ele pode ser. Ele luta contra esse determinismo, porque não quer deixar de ser poeta. Aí, Severino (também Dumont), um operário-padrão, mata o chefe na cerimônia de sua premiação e foge.
Confundido com o assassino, Deraldo tem de largar seus poucos pertences e sumir nas ruas da cidade grande. Encontra trabalho num canteiro de obra, onde pode dormir num alojamento minúsculo, compartilhando este sucedâneo da senzala para tantos peões. No meio de seus colegas (muitos dos que aparecem na tela são realmente peões, marca do passado documentarista de Andrade), ele ouve seus sonhos, lê cartas para quem não sabe ler. E descobre que só pode viver em paz se encontrar seu sósia matador.
Mesmo dramático, O Homem que Virou Suco não deixa de incluir momentos cômicos, como quando Deraldo enlouquece um supervisor, correndo dele numa obra e prendendo-o num elevador. Aí também colabora a incrível agilidade física de Dumont, como se viu em trabalhos posteriores, como o excelente Narradores de Javé.
O filme acumula prêmios, os principais, dois troféus de melhor ator para Dumont, nos festivais de Brasília e Gramado e o Grande Prêmio no Festival de Moscou.
Em tempo: a restauração deve-se ao empenho do Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro.
