Victor (interpretado pelo roteirista e diretor do filme Nicolas Bedos) é um aspirante a escritor que fica indignado de inveja quando, nos anos 70, o escritor Patrick Modiano ganha um prestigioso prêmio literário: “Os livros dele são ruins e convencionais. Livros escritos pelo vovô!”, pragueja em direção à televisão. Curiosamente, essas mesmas palavras podem ser empregadas em relação ao filme.
O longa acompanha os 45 anos de relacionamento de Victor Adelman – cujo sobrenome real é de Richemont – e Sarah Adelman (Doria Tillier). A trama é narrada por ela, logo depois do enterro do marido, a um jornalista que pretende redigir a biografia definitiva do escritor. E uma das revelações é que ele adotou o sobrenome dela, porque “soa mais judeu”.
Seguimos as quatro décadas de idas e vindas, nascimentos e mortes, na vida de duas pessoas sem graça o suficiente para justificar um filme, e cujo relacionamento também não traz nada de notável. A priori, nada disso seria um empecilho, mas a displicência e convencionalismo como que Bedos constrói seu filme acaba por torná-lo entediante.
Bedos escolhe momentos-chave ao longo dos anos para investigar o relacionamento de Sarah e Victor, mostrando assim a ascensão e declínio até a separação do casal e o que vem depois. O casal de filhos, por sua vez, é mais coadjuvante do que os romances do escritor. Para o final, o diretor/roteirista guarda uma reviravolta forçada que, supostamente, recoloca tudo o que se viu em perspectiva. Que nada, é só mais uma bobagem, depois de duas horas de nada memorável. Curiosamente, o “vovô” Ingmar Bergman já havia feito, mais de 30 anos atrás, com Cenas de um Casamento, o filme que Bedos acha que fez. E já o "vovô" Modiano, como se sabe, ganhou um Nobel em Literatura em 2014.
