Tzanko é um ferroviário pobre e solitário que um dia encontra uma alta soma em dinheiro nos trilhos, mas devolve à polícia. Pensando em desviar o noticiário de seu chefe corrupto, o ministro dos transportes, sua assessora tem a ideia de que ele entregue um prêmio ao trabalhador honesto. A homenagem acaba trazendo mais problemas do que benefícios a Tzanko.
- Por Neusa Barbosa
- 02/08/2017
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Diretores do multipremiado A Lição (2014), os búlgaros Kristina Grozeva e Petar Valchanov entregam o segundo filme de uma anunciada trilogia baseada em notícias de jornal com o drama Glory, igualmente celebrado num grande circuito de festivais europeus a partir de Locarno 2016.
Há uma habilidosa combinação entre engenho e despojamento na composição da história, assinada pelos diretores e Decho Taralezhkov. Ao centro dela, está o ferroviário Tzanko Petrov (Stefan Denolyubov). Cinquentão solitário, empobrecido pelo salário miserável, recebido com atrasos, ele tem como única companhia seus coelhos, numa casa desvalida e quase arruinada.
Sua rotina implacável é percorrer quilômetros de ferrovia, fiscalizando eventuais problemas de segurança. Um dia, encontra nos trilhos algumas notas de dinheiro. O primeiro impulso é guardar algumas, afinal, suas necessidades são prementes. Quando nota, no entanto, que há centenas delas ao longo do caminho, decide chamar as autoridades.
Esse gesto de honestidade não passa despercebido de uma esperta assessora de imprensa, Julia Staykova (Margita Gosheva). Mulher de confiança de um ministro dos Transportes (Ivan Savov) às voltas com incômodas denúncias de corrupção, ela enxerga em Tzanko uma oportunidade de desviar o foco do noticiário, com a entrega de um prêmio ao seu raro desprendimento.
Tzanko e Julia são dois lados do país em franca rota de colisão. O dele é um mundo rural, antigo, nostálgico de valores e afetos. O dela é uma modernidade urbana obcecada pelo sucesso material a qualquer preço. Seu encontro só poderia gerar ruído e faíscas. A dificuldade de comunicação começa no fato de que o ferroviário é gago, tornando-o um candidato difícil para ser transformado em personagem de programas televisivos. Fora isso, ele não tem sequer uma roupa decente para aparecer em público.
Esses obstáculos são contornados de modo a tirar o máximo proveito de Tzanko, que vai receber seu prêmio – um relógio digital. Não é exatamente disso que ele precisa, ainda mais que seu velho relógio (a que se refere o título) tem um valor sentimental muito importante. Nada disso, é claro, interessa a Julia, que dá um jeito de tirar de Tzanko o velho relógio para a cerimônia com o ministro, prometendo devolvê-lo depois.
Aí entra em funcionamento o mecanismo inexorável de uma tragédia, que também alude ao maquinismo de um relógio bem ajustado. Imersa em seus próprios problemas, envolvendo não só o ministério sob caça de repórteres ávidos, como Kiril Kolev (Milko Lazarov), como a pressão de seu próprio marido (Kitodar Todorov) para que ela siga um tratamento de fertilidade, Julia acaba perdendo o relógio de Tzanko.
A luta do ferroviário para recuperar seu bem torna-se uma cruzada quixotesca que o expõe, em sua franqueza um tanto ingênua, a tornar-se um joguete nas mãos de grupos diversos. No mundo de hoje, e não só na Bulgária, parece não haver mais lugar para uma sinceridade tão desprovida de segundas intenções quanto a de Tzanko, interpretado com brio por Stefan Denolyubov, um dos atores habituais da dupla de diretores, assim como Margita Gosheva.
Pensando em comparações, há uma inevitável lembrança do melhor do cinema romeno, russo e ucraniano, vindo à mente nomes como Corneliu Porumbuiu, Andrei Zvyagintsev e Sergei Loznitsa. De todo modo, é certo que Kristina Grozeva e Petar Valchanov, que trabalham juntos desde a universidade, estão inscrevendo o nome da Bulgária no mapa do cinema a que se deve prestar atenção nos dias de hoje.
