Premiado diretor de fotografia e cineasta, Walter Carvalho interroga seus colegas sobre suas motivações no ofício de fazer cinema. As respostas formam um amplo painel sobre a arte e a produção cinematográfica contemporânea. O longa conta com depoimentos de Ariano Suassuna, Julio Bressane, Andrezj Wajda, Ruy Guerra, Ken Loach, Béla Tarr, Gus Van Sant, Jia Zhangke, Lucrécia Martel, entre outros.
- Por Alysson Oliveira
- 18/08/2017
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Walter Carvalho é um dos maiores diretores de fotografia do Brasil – tem no currículo obras como Central do Brasil, Febre do Rato, O Céu de Suely – e também cineasta bissexto – com Budapeste e os documentários Moacir Arte Bruta, Raul – O início, o fim e o meio, entre outros. Em seu novo documentário, Um Filme de Cinema, investiga o que move seus colegas de profissão. Cineastas como Ruy Guerra, Lucrécia Martel, Jia Zhangke, Ken Loach, Béla Tarr, Julio Bressane e Andrzej Wajda contam o que os inspira, o que os leva a fazer filmes e, mais importante, como os fazem. Há também um depoimento do escritor Ariano Suassuna, que conta sobre sua relação com o cinema desde o primeiro filme que viu, As Cavadoras de Ouro.
O filme é uma ode à arte do cinema, mas também uma investigação sobre o que une cada um dos entrevistados em sua paixão pelo ofício e o que faz cada um tão único. Nesse sentido, o documentário é revelador. A argentina Lucrécia Martel, autora de filmes como O Pântano e A Menina Santa, conta sobre a construção dos planos de seu filme: “Toda a expectativa que se gerou até o momento, que é o futuro dos próximos frames, e todos os frames que já vimos, presentes em nossa memória, o que tenho no cinema é puro presente. Porque o cinema, para mim é muito próximo ao corpo nisso, nessa experiência”. Basta ter visto um filme da diretora para ver como isso ilustra bem a relação dela com a maneira como filma os corpos.
O filme parte das ruínas de um cinema abandonado no sertão da Paraíba – estado onde o documentarista nasceu – e se abre de forma mais ampla em sua inquietação sobre o cinema como arte, mas também como produção inserida dentro de um sistema global. É sintomático, então, que se procure o que faz de cada diretor e diretora entrevistados único e exclusivo, o que os destaca de uma indústria que tende à homogeneização.
Cada um conta como faz o seu cinema, e a dinâmica entre tempo e espaço se torna central e, mais uma vez, o documentário, é revelador. O grande cineasta húngaro Béla Tarr (Satantango, O Cavalo de Turim – este codirigido com Ágnes Hranitzky) confessa: “Eu brinco com o tempo. (...) O tempo é uma dimensão da nossa vida e tudo está acontecendo no tempo (...) E acredito que a verdadeira arte deve estar mais perto da vida do que do mercado”. Para o chinês Jia Zhangke (As Montanhas se Separam, Still Life – Em Busca da Vida), um plano longo é uma forma de democracia, “demonstra respeito tanto para com o personagem quanto para com os espectadores”, explica sobre as liberdades de escolha que um plano mais longo dá.
Em sua essência, o filme de Carvalho é exatamente isso, sobre a democracia, o livre arbítrio que o cinema pode proporcionar. Numa era em que cada vez mais o digital briga com as salas de cinema pela hegemonia da exibição – pautada, é claro, pelo lucro –, o documentário é uma peça de resistência, começando pelo seu título. E, ao ilustrar seu argumento tanto com falas de seus entrevistados, como também com imagens, convida seu público a repensar sua própria relação com o cinema. É um filme obrigatório a qualquer pessoa que veja o cinema como mais do que uma forma de matar o tempo comendo pipoca.
