Rosa (Maria Ribeiro) tem 38 anos, duas filhas, um marido (Paulo Vilhena), um trabalho que odeia (escrevendo catálogos de porcelana de banheiro), o sonho adiado de ser dramaturga, uma mãe (Clarisse Abujamra) com quem tem uma relação distante e conturbada, e um pai (Jorge Mautner) amoroso, mas um tanto avoado. Essas são algumas de suas certezas inevitáveis em sua vida. Tudo isso, de uma forma ou de outra, são pressões que a obrigam a deixar a si mesma em segundo plano.
Como Nossos Pais, filme de Laís Bodanzky (As Melhores Coisas do Mundo), coloca essa mulher no centro do palco, trazendo com estopim uma descoberta que mexe com todos esses alicerces: Rosa não é filha biológica de Homero, o pai que a criou. Sua mãe lhe revela a notícia bombástica depois de um almoço de domingo, na frente de toda a família. O ponto de partida do longa se torna, então, a crise de identidade de sua protagonista. Quem é ela? É tudo isso que ela pensa ser? O fato de descobrir que seu pai é outro homem muda tudo?
Quando conhecemos Rosa, ela está entrando em crise – a revelação é uma das primeiras cenas do filme -, e seu mundo está ruindo. Não recebe muita atenção ou apoio do marido, Dado, que vive viajando para comunidades indígenas e pode estar tendo um caso extraconjugal. Para piorar a situação, sua mãe, Clarice, revela que está com câncer e não terá muito tempo de vida, assim, quer apenas curtir os meses que lhe restam.
É com visível honestidade que Laís – trabalhando com um roteiro assinado por ela e Luiz Bolognesi – acompanha esse turbilhão de incertezas na vida de Rosa. A personagem não é carismática (e nem pretende ser) mas conquista com sua honestidade – especialmente pela interpretação inspirada de Maria Ribeiro, premiada em Gramado/2017 por esse trabalho. No festival, o longa também recebeu prêmios de filme, direção, ator (Vilhena), atriz coadjuvante (Clarisse) e montagem, assinada por Rodrigo Menecucci.
É uma história que tem claramente a intenção de lidar com questões femininas e, por que não?, feministas do presente – embora as referências de Rosa nesse quesito sejam um tanto datadas, mas não descartáveis: O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, e a peça Casa de Bonecas, do norueguês Henrik Ibsen, da qual a protagonista escreve uma releitura. Os dilemas com que Como Nossos Pais trabalha são pertinentes, mas tal como sua protagonista, o longa parece fechado em sua bolha. A Rosa falta uma boa dose de percepção de seu privilégio de classe. Ela é branca, classe média alta, que cresceu num ambiente intelectual e se tornou uma mulher esclarecida.
Essa limitação da personagem talvez se explique como um movimento contrário à sua mãe – uma socióloga especializada em educação – , a quem a posição de classe parece um pouco mais clara do que à protagonista. Não há problema algum em Rosa, como personagem, ter essa espécie de miopia social, mas o filme teria muito a ganhar se tirasse proveito dessa limitação da personagem. Falta um pouco um olhar menos condescendente a ela.
Em se tratando de questões políticas, o filme parece estar em sintonia com as formulações da jornalista e ativista norte-americana Carol Hanish, que, nos anos de 1970, escreveu que “o pessoal é político”. Há um momento em que Rosa vai para Brasília e se encontra com um ministro (Herson Capri), mas isso, como tudo no longa, é filtrado pelo prisma de sua crise de identidade. Nesse momento, Como Nossos Pais flerta com o Brasil de uma maneira mais ampla, mas não tira todo o proveito que poderia desse momento de sua narrativa.
Rosa constantemente reclama das imposições sociais que acabam absorvidas como imposições pessoais – como mãe, esposa, filha, mulher, profissional etc –, mas também desfruta, sem se dar conta, de sua inserção na burguesia esclarecida, sem abrir mão de suas regalias. Ela é, de certa forma, uma versão um tanto mais ingênua de Clara, protagonista de Aquarius, de Kléber Mendonça Filho. As duas têm a mesma vantagem de classe, mas ao contrário deste filme, o longa pernambucano fazia isso uma questão, jogando o tempo todo com o paradoxo da burguesa liberal (no sentido sociocultural, não político-econômico). Como Nossos Pais é interessante e levanta questões relevantes no presente – especialmente para as mulheres –, mas se limita a diagnosticá-las, raramente entrando em seu cerne, truncando um movimento que poderia transformá-lo num grande filme.
