O Irã rural ressurge em mais um filme que costura as relações entre a passagem das estações, o árduo cotidiano de uma comunidade de camponeses e os próprios rituais da vida: nascimento, morte, superação, transmissão de experiências através da tradição oral. Tudo isso contado de forma muito plácida e com belíssimas imagens da região de Talesh.
É característica essencial do cinema iraniano, aliás, esse contar a vida como se ela estivesse acontecendo ali mesmo diante das câmeras, com a naturalidade de um documentário. Aqui, mais uma vez, é quase como se a câmera não existisse. Quando o filme começa, é inverno. Uma camponesa se recolhe, prestes a dar à luz. Por essa condição especial, é capaz de compadecer-se de uma das gazelas que, como várias outras, foge dos caçadores, ocupados na tarefa básica de garantir sua comida, ainda mais escassa por causa da grossa camada de neve que recobre as montanhas. Acaba conseguindo que pelo menos uma sobreviva como seu bichinho de estimação. O sangue das outras, porém, manchará a neve.
A primavera chega, mas a vida destes camponeses não se torna mais fácil. Na verdade, seu cotidiano é resultado de um constante enfrentamento com a natureza, onde não resta muito espaço para a contemplação. Praticamente não há tempo para descanso. No inverno, os homens devem caçar e tosquiar as ovelhas, para que as mulheres teçam a lã em seus teares. O verão é tempo de colher mel e framboesas. Também é a estação dos casamentos, quando homens com longas flautas e coloridas multidões com pandeiros e estandartes marcam o tom das festas. Uma inesperada história de amor entre uma moça e um forasteiro rompe a incessante repetição destes rituais e afirma a imprevisibilidade das emoções. Em seu segundo filme, o diretor Farhad Mehranfar compõe uma despretensiosa fábula com belo visual mas que não alcança, ainda, a profundidade de trabalhos de seus compatriotas, como Abbas Kiarostami e Jafar Panahi.
