20/07/2026
Drama

A Caminho de Kandahar

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O pesadelo das mulheres afegãs sob o jugo obscurantista do Talebã foi visitado a sangue quente por Mohsen Makhmalbaf neste filme forte, belo e necessário. Filmado entre novembro de 2000 e fevereiro de 2001, antes, portanto, dos bombardeios americanos, na fronteira entre o Irã e o Afeganistão, o trabalho revela o melhor do estilo do cineasta iraniano. Ou seja, a habilidade de entremear ficção e realidade de tal forma que se apaguem as fronteiras entre uma e outra, sem descuidar da emoção e das belas imagens. Coisa que ele fez magistralmente antes, em Salve o Cinema (94), e até usando um episódio de sua história pessoal em Um Instante de Inocência (96).

O grande achado de Makhmalbaf aqui foi a jornalista afegã, exilada no Canadá, Niloufar Pazira - que esteve em São Paulo durante a 25ª Mostra BR de Cinema e foi de longe a visitante mais política do festival paulistano, dando de viva voz um depoimento que tornou tristemente clara a emergência social e humana de seu país.

Aproveitando em quase todos os detalhes a história real de Niloufar e uma amiga sua, que desapareceu no Afeganistão dominado pelo Talebã, o cineasta criou um enredo que mistura o drama das mulheres - proibidas de ir à escola e trabalhar, obrigadas a cobrir-se da cabeça aos pés por um pesado traje, a burca - com o dilema dos inúmeros mutilados de guerra e a total falta de perspectivas econômicas para a maioria da população do Afeganistão. Uma situação ainda pior depois da guerra com os EUA.

A protagonista é Nafas (Niloufar Pazira), que recebe uma carta desesperada da irmã caçula (este, um detalhe alterado por Makhmalbaf, para dar maior impacto emocional à história). Nela, a moça anuncia seu suicídio para o próximo eclipse, diante da total ausência de esperança de seu cotidiano. Além do sufocamento imposto pelos fanáticos fundamentalistas às mulheres afegãs, a menina já vive o drama de ter perdido as duas pernas, atingidas por uma mina oculta numa boneca, monstruoso recurso usado por soldados dessa e de outras regiões conflagradas do mundo.

O calvário de Nafas para entrar no Afeganistão e chegar a tempo para impedir a morte da irmã é desenhado por imagens de raro impacto - como a "chuva" de pernas artificiais lançadas de helicóptero pela Cruz Vermelha, disputadas por uma multidão de mutilados ansiosos, que abre o filme.

Na entrevista em São Paulo, Niloufar contou que a idéia dessa imagem, que reflete a grande imaginação de Makhmalbaf, lhe foi sugerida quando o cineasta assistiu a um lançamento aéreo de pacotes de comida para os refugiados. Ele pensou, então, em qual seria o grande sonho dos mutilados - que "chovessem" pernas, uma das coisas que mais lhes faltava no dia-a-dia.

Outra seqüência quase surrealista é o exame médico à distância. Na cena, o médico Tabib Sahib (Hassan Tantaï) examina suas clientes através de um biombo de pano, onde um pequeno buraco no centro não permite ver mais do que sua boca. Além disso, as mulheres não podem falar diretamente com o médico, nem ele com elas. Para esse diálogo, é necessária a presença de um homem, nem que seja um menino, como aparece no filme. Tantaï, aliás, é outro personagem real vivendo um papel calcado em sua biografia. Segundo Niloufar Pazira, ele é um americano que trocou os EUA pelo Irã, inspirado pela Revolução Islâmica em 79, e resolveu radicar-se naquele país. Deixando de lado a política, mesmo sem ser médico de verdade, aproveitou seus conhecimentos na área para assistir as populações pobres e isoladas que, de outra forma, não teriam acesso a nenhum cuidado de saúde.

Bela e ambígua também é a seqüência que mostra um cortejo de casamento, retratando uma multidão de mulheres na paisagem do deserto, em que a beleza das cores das burcas não oculta a ambigüidade de uma situação em que uma não vê o rosto da outra - portanto, quem está ao lado pode ser um inimigo em potencial, ainda mais no caso da jornalista, que viaja clandestina e com um gravador oculto nas vestes. O horror é isto.

Se a esperança para a mulher afegã, como diz um diálogo, é um dia ser vista, o filme do iraniano Makhmalbaf contribui e muito para levantar o véu do silêncio diante de uma opressão com a qual o Ocidente tem sido escandalosamente omisso. Mais uma vez, um cineasta iraniano realiza um filme de primeira linha com um tema conectado às mulheres. Em 2000, foi Jafar Panahi, com O Círculo, vencedor do Leão de Ouro em Veneza. Agora é a hora e a vez de Makhmalbaf.

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