Logo de saída, vai ser difícil evitar a nostalgia ao pensar que não será mais possível reunir hoje um quarteto tão soberbo de atores quanto este que se entregou a Ferreri. Entrega é a palavra justa. Afinal, Marcello Mastroianni, Ugo Tognazzi, Philippe Noiret e Michel Piccoli certamente não iriam tão longe em suas interpretações como neste filme se não tivessem uma extrema confiança no diretor. Uma exposição que começa no uso de seus próprios nomes para batizar seus personagens e vai muito além, num desnudamento físico e psicológico que escancara várias vezes o limite do pudor e do bom-gosto.
A provocação começa na idéia fundadora do roteiro: quatro amigos decidem suicidar-se em grande estilo, empanturrando-se até a morte com os manjares mais sofisticados, numa mansão pertencente a um deles, o juiz Philippe (Noiret). Reúnem-se a ele o restaurateur Ugo (Tognazzi), o diretor de TV Michel (Piccoli) e o piloto Marcello (Mastroianni). Cercados de iguarias especialmente produzidas para o filme pela maison Fauchon, uma das mais tradicionais lojas gastronômicas de Paris, os quatro embarcam nesta jornada de excessos aparentemente prazerosa para o apetite, mas que não encobre a angústia da procura de uma solução final - cuja causa, aliás, nunca é elucidada pelo filme.
Talvez seja só o mal-estar da civilização de que tanto falava Freud e que tenha chegado ao limite do suportável para os quatro homens maduros e saciados de todos os prazeres. Ferreri não estava preocupado em dar explicações. Substituía-as, especialmente neste filme duro, pelo fornecimento de sensações ao espectador, muitas desagradáveis, mas todas intensas. Seu público não reclamava de tédio. Ferreri não recuava nunca diante da escatologia, o que contribuiu para a consagração deste filme, que lhe deu a maioridade pretendida como realizador que ele já perseguia há vários anos.
As mulheres participam marginalmente desta trama - com exceção de Andréa Ferréol, musa opulenta tão diferente das modelos esquálidas de hoje, que se integra ao grupo como um quinto elemento natural, que toma a si em vários momentos o encargo de dar prosseguimento à cerimônia do adeus dos quatro homens. Mais do que ela, o público é que se torna testemunha e cúmplice desta obra e deve decidir, portanto, se Ferreri era mesmo um transgressor, um provocador ou uma fraude. Independente das opiniões, não dará para negar que o diretor - que realizou também Crônica de um Amor Louco e A Carne - era alguém que gostava de explorar o reverso das coisas, especialmente as essenciais, como o amor e a morte.
