O cinema de Frederico Machado (O Signo das Tetas, O Exercício do Caos) é pautado pela guerrilha (equipe pequena, baixo orçamento) e radicalidade. As duas coisas estão intimamente ligadas e são o que permite que faça os filmes que faz, da maneira que faz. Com seu terceiro longa, Lamparina da Aurora, ele parece ter chegado ao melhor momento de sua carreira como diretor – aqui, ele também assina, produção, roteiro e fotografia.
Como nas obras anteriores, a trama é quase um pretexto para uma investigação em imagens do mal-estar do presente. Há uma narrativa, uma linha condutora, que mais são pequenos acontecimentos que conduzem seus personagens de um estado de espírito para outro – e espírito é uma palavra-chave aqui, assim como seu estado.
Os personagens são um casal de idosos – interpretados por Buda Lira e Vera Leite – que moram uma fazenda isolada. Todas as noites, recebem a visita de um homem misterioso (Antonio Sabóia). Seus diálogos são praticamente inexistentes, mas há uma conexão estranha, praticamente mística entre eles. Troca de olhares e toques são a maneira como se comunicam.
Como amálgama desse mundo e dessas figuras, Machado usa a poesia de seu pai, o poeta Nauro Machado (1935-2015), lida por ele mesmo, pontuando o filme de tempos em tempos. O poeta, o artista, surge como uma espécie de deus onisciente em meio ao caos silencioso em que vivem os personagens, criando fantasmagorias que os engolem.
Rodado nos arredores de São Luís do Maranhão, Lamparina da Aurora é um filme que seduz (com sua beleza estética altamente pensada) e assombra (com suas fantasmagorias e reverberações e ecos da vida e a morte). Machado encontrou em sua maneira de fazer cinema sua linguagem e representação visual. O resultado é um terror psicológico que foge completamente da cartilha do gênero. Um bem-vindo estranho nesse ninho.
