Celebrando 300 anos de sua devoção em 12 de outubro de 2017, o culto a Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, é o objeto do documentário A Imagem da Tolerância.
Dirigido por Joana Mariani e Paula Trabulsi, o filme reúne entrevistas de padres, teólogos, romeiros e também integrantes de outras religiões – como budistas, judeus e umbandistas – para explorar o fenômeno da fé conjugada numa figura feminina e negra.
A peculiar forma do sincretismo religioso brasileiro manifesta-se através de testemunhos como o de Débora de Almeida, porta-bandeira da Mangueira que envergou, num desfile, o manto azul de Nossa Senhora e é, apesar de umbandista, devota fiel da padroeira católica, assim como sua mãe, Maria do Carmo. A cantora Maria Bethânia – cuja voz é ouvida entoando diversas músicas ao longo do documentário – é outra vívida expressão desta fé sincrética.
É sempre complicado falar de fé, porque se trata de vivência pessoal e indivisível. Assim, ao lado destes depoimentos, alinham-se entrevistas muito elucidativas, como com a teóloga e professora da PUC-RJ Lina Boff, que discorre sobre a necessidade de uma mútua compreensão/tolerância entre o catolicismo e as religiões africanas e defende que Nossa Senhora Aparecida seja não uma padroeira mas uma “madroeira”.
Outras aproximações são feitas a partir da figura feminina e acolhedora da santa, como faz o monge budista Lama Michel Rimpoche, refletindo sobre a “energia feminina de acolher, ter intuição e cuidar do ambiente”. Em linha semelhante se expressa o rabino Nilton Bonder, que lembra, na tradição judaica, das cantigas maternais, da “Shehinakh” (aspecto feminino de Deus) e também da figura bíblica de Miriam, irmã de Moisés, responsável por salvá-lo da perseguição do faraó aos hebreus do Egito ao colocá-lo numa cestinha no rio Nilo.
Da mesma forma, o padre Fábio de Melo, além de lembrar sua própria experiência na devoção a Aparecida, sustenta que, com o Papa Francisco, a Igreja “está se tornando mais maternal e acolhedora”.
Diversas frases do atual papa, aliás, pontuam o filme, inclusive esta, que se relaciona intimamente com o sentido maior do documentário: “Só os que dialogam podem construir pontes”. Nesta linha, talvez quem defina melhor este sentido seja a própria Bethânia, que lamenta a atual onda de intolerância no Brasil: “Estou triste porque estamos perdendo a nossa natureza. Temos as nossas diferenças, as nossas estranhezas, mas temos também esta terra comum, sob o manto de Nossa Senhora. Nossa mistura era feliz. Por que estamos perdendo essa felicidade?”.
