21/07/2026
Documentário

Tudo é projeto

Único arquiteto brasileiro premiado com o Prizker, uma das mais importantes premiações da área no mundo e às vésperas de completar 90 anos, o arquiteto Paulo Mendes da Rocha fala de sua vida e obra, bem como de suas ideias sobre a arte.

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Perto de completar 90 anos – o que acontece em 2018 -, o arquiteto Paulo Mendes da Rocha é radiografado no documentário Tudo é Projeto, assinado por sua filha, Joana Mendes da Rocha, e Patricia Rubano.
 
Premiado como melhor documentário na 41ª Mostra Internacional de São Paulo, o filme acompanha conversas e andanças com o arquiteto capixaba, um dos principais nomes da arquitetura brasileira e autor de diversos projetos não só dentro do país, como no exterior – caso do Museu dos Coches, em Lisboa. Rocha é também o único arquiteto brasileiro premiado com o Prizker, uma das mais importantes premiações internacionais da área.
 
Carismático e falante, Paulo é capaz de hipnotizar com uma conversa que, várias vezes, se impregna de literatura e filosofia, para discorrer sobre sua especialidade. Arquitetura, para ele, é “um desejo humano”; a seu ver, “fizemos cidades para ter com quem falar”. E arquitetura, afinal, existe para “amparar as imprevisibilidades da vida”.
 
Materializando essas ideias, ele percorre, com a filha, algumas de suas obras, como uma casa no bairro do Butantã, de 1964, toda permeável, induzindo à convivência entre os moradores e à interação com a natureza em volta, construída num nível só. Ou a Casa Masetti e suas belas e originais piscinas. Ou a Praça do Patriarca, cuja renovação ele projetou, em 2000, inserindo-lhe um pórtico e sua cobertura. Ou uma das mais recentes realizações, o Sesc 24 de Maio, também no centro velho de São Paulo.
 
O centro da cidade, afinal, é objeto de comentários mais precisos. Para o arquiteto, há uma tendência inexorável rumo à democratização dessa parte da cidade, diante da retirada das classes abastadas, que se isolam em seus condomínios fechados em outros locais. Ele mesmo, afinal, tem no centro velho de São Paulo seu escritório há pelo menos 35 anos.
 
Ele comenta também o sucesso da cadeira Paulistano, de 1957, uma criação que ele desenvolveu a partir de ter tido conhecimento das possibilidades do aço-mola, passível de ser moldado a frio, sem perder a têmpera. Isto o levou a idealizar uma cadeira flexível, que recebeu um assento de tecido. Ele conta ter sonhado, na época, em colocar uma cobertura semelhante às redes indígenas, mas, na impossibilidade disto, o protótipo da cadeira recebeu um singelo assento feito de saco de aniagem. Hoje, uma empresa francesa comercializa esta cadeira, um dos maiores sucessos da carreira de Rocha, que recebe royalties 60 anos depois de sua invenção.
 
É uma pena que um documentário com uma figura tão expressiva se fragilize, eventualmente, com participações da filha-interlocutora que não se justificam, sobrando no tecido do filme. Um enxugamento dessas partes que não somam ao conteúdo geral do todo viriam a calhar.
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