21/09/2026
Documentário

Cartas para um ladrão de livros

Por alguns anos, Laéssio Rodrigues de Oliveira circulou entre bibliotecas de órgãos públicos, à caça de livros raros, fotos, gravuras e mapas antigos, que ele roubava para clientes endinheirados. Depois de ser preso e perder seus bens, ele expõe as contradições de sua situação. Também são ouvidos funcionários das bibliotecas que ele roubou, leiloeiros e policiais.

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O personagem central do documentário Cartas para um ladrão de livros, Laéssio Rodrigues de Oliveira, certamente não é nenhum herói. Mas é, inegavelmente, um objeto fascinante de estudo, com todas as contradições de uma personalidade que levantou não poucas questões éticas aos documentaristas, Carlos Juliano Barros e Caio Cavechini.
 
Escorados em sua experiência jornalística e em três sólidos documentários anteriores – Carne, Osso (2011), Jaci – Sete Pecados de uma Obra Amazônica (2014) e Entre os Homens de Bem (2016) -, eles se lançam à exposição das diversas camadas de uma história complexa, que denuncia, também, mazelas de um país em que a responsabilização por crimes varia radicalmente de acordo com a condição social de quem os pratica.
 
Realizado ao longo de cinco anos, o documentário reconstitui a trajetória de Laéssio, tido como o maior ladrão de livros raros do Brasil, com atuação registrada em cinco estados, com quatro passagens pela prisão (atualmente, ele está preso novamente).
 
Ex-balconista de padaria e auxiliar de pizzaria, Laéssio era um apaixonado por Carmen Miranda que colecionava iconografia relaciona à sua musa e, num determinado momento, segundo conta, sucumbiu à tentação de roubar uma rara revista antiga, com a cantora na capa, no Museu da Imagem e do Som. Foi-se especializando nesse tipo de furtos, depois não mais para consumo próprio. Ao longo dos anos, observando as brechas de segurança em diversas bibliotecas públicas, em São Paulo, no Rio e em Brasília, e atendendo à demanda de clientes dispostos a desembolsar boas quantias, passou a roubar fotos, mapas e gravuras históricas.
 
Enquanto não foi descoberto, a atividade permitiu-lhe um alto nível de vida, com direito à propriedade de um bom apartamento, viagens e consumo de bons vinhos, ao lado de um parceiro amoroso. Um dia, a casa caiu e ele entrou no radar da polícia e da justiça. Desde então, sua vida tem-se resumido a um entrar e sair de prisões, onde costuma se dar bem ajudando presos a conseguirem benefícios, já que ele é um dos poucos a ter alguma escolaridade.
 
Habilmente, os documentaristas escapam de uma glamorização de Laéssio, certamente um indivíduo de boa lábia, incorporando comentários de algumas de suas vítimas, como bibliotecários e dirigentes de algumas das bibliotecas que tiveram seus tesouros pilhados ou mutilados por ele. Mas o próprio delegado da PF que elucidou estes crimes - e que faz questão de pontificar que “cadeia adianta” - não consegue negar que os ricos e poderosos clientes de Laéssio, cujas casas ele frequentava em seus tempos de glória, ficaram impunes, sem exceção, alegando desconhecimento da origem dos produtos adquiridos.
 
Certamente, a atividade criminosa de Laéssio colocou em evidência as falhas de segurança e conservação de preciosos acervos históricos em poder do Estado – o que não pode ser pretexto para seu desmonte, bem pelo contrário. Ao mesmo tempo, é curioso como o próprio Laéssio é capaz de fornecer um diagnóstico preciso de seus clientes, segundo ele, pessoas endinheiradas que não ligam para a cultura, colecionando estes itens apenas pelo desejo de ostentação de um objeto raro, que certamente teria que se dar num círculo bastante restrito.
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