14/06/2026
Drama

A número um

Emmanuelle é alta executiva da empresa Theores. Um dia, é contatada por um coletivo feminista, interessado em vê-la disputar a indicação para comandar a principal empresa de energia da França, a Anthea. Ao se dispor a isso, ela enfrenta uma guerra sem tréguas por parte de homens poderosos que têm outros planos.

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Atriz e diretora, a francesa Tonie Marshall notabilizou-se por uma obra em que investiga a trajetória feminina no mundo do trabalho. Foi assim em Instituto de Beleza Vênus (99), até aqui seu filme mais famoso e que lhe deu o César de melhor diretora, tornando-a a primeira mulher a receber o mais importante prêmio da França nesta categoria.
 
Em seu mais recente trabalho, A Número Um, ela volta à temática afastando-se do tom intimista de seu filme de 1999 para explorar as práticas impiedosas no mundo das grandes empresas. Nesse espaço em que mulheres em postos de comando não chegam a 10%, ela traça o percurso de Emmanuelle Blachey (Emmanuelle Devos), uma bem-sucedida executiva da empresa Thores, casada e mãe de dois filhos.
 
No dia em que faz uma palestra num Fórum de Mulheres, ela é procurada por Adrienne Postel-Devaux (Francine Bergé), veterana dirigente de uma organização feminista, a Olympe, que atua para maior participação feminina em diversos setores. Seu objetivo agora é lutar pela indicação de uma mulher à frente da gigante nacional de energia, a Anthea.
 
O jogo é pesado, político e, de início, tem que ser travado nos bastidores. Emmanuelle tem que avaliar sua disposição para uma guerra em que literalmente vale tudo, sua vida pessoal incluída. Quando o rival é uma mulher, as armas que se usa são distintas, como bem sabe Jean Beaumel (Richard Berry), um ex-dirigente da Anthea que ainda detém alto poder de manipulação fora dos olhos do público e tem seu próprio candidato para comandar a empresa – evidentemente, um outro homem.
 
Autora do roteiro, ao lado de Raphaelle Bacqué, jornalista do diário Le Monde, e Marion Doussot, a diretora está focada em particularizar como se dá esta batalha para uma mulher com vocação executiva num mundo dominado por homens. Há inteligência bastante no roteiro e na direção para não vitimizar sua protagonista, interpretada com nuances extraordinariamente sutis pela talentosa Emmanuelle Devos.
 
Nem santa nem bruxa, nem apenas profissional, mas também mãe e esposa, ela atravessa os muitos desafios e cobranças no seu caminho, tendo que absorver, assessorada por suas novas aliadas, as particularidades desta jornada peculiar. É notável que o filme também fuja do maniqueísmo, mostrando mulheres capazes de usar, quando se mostra necessário, as mesmas armas que os homens.
 
Emmanuelle Devos alterna dureza e doçura, força e ansiedade, mostrando camadas de uma personagem bastante humana, sem recair nem em sentimentalismo nem implacabilidade excessivos. Conduzida por essa extraordinária atriz, a personagem é capaz de trafegar por inúmeras situações. Eventualmente, neste ambiente, o filme torna-se um pouco árido, mas sua atriz nunca perde a capacidade de encantar.
 
Dentro do grande elenco, destaca-se também a canadense Suzanne Clément (Mommy), interpretando uma das mulheres da Olympe a dar suporte a Emmanuelle. Entre os homens, são impecáveis as duas serpentes no caminho da protagonista, o citado Berry e Benjamin Biolay, como Ronsin, um seu assessor mais do que maquiavélico, mas igualmente capaz de apresentar inúmeras nuances.  
 
É possível, até certo ponto, comparar o filme francês com o alemão Toni Erdmann, da diretora Maren Ade, que igualmente percorre a trajetória de uma executiva, só que desenraizada de sua família e até de seu próprio país, despersonalizada como indivíduo. A número um explora outras direções, mais centradas na própria cultura do mundo corporativo e, ao final, não entrega nenhum Lobo de Wall Street. Emmanuelle nunca deixa de ser humana.
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