13/09/2026
Documentário

Górgona

O foco desse documentário é a atriz Maria Alice Vergueiro e a sua montagem da peça "As três velhas". O filme acompanha sua jornada em cima e fora do palco, suas batalhas emocionais, físicas e financeiras para manter o espetáculo.

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A primeira aparição da atriz Maria Alice Vergueiro no documentário Górgona é num palco encarando uma plateia vazia durante os ensaios de uma peça de teatro. Suas primeiras falas são: “Vou completar 100 anos. O que resta de vida em mim? Um sopro inútil. Prefiro morrer no gozo da oferenda”. Esse é o ponto de partida do longa dirigido pelos estreantes Pedro Jezler e Fábio Furtado, que a acompanharam por cinco anos, durante as exibições do espetáculo A três velhas, do cineasta, dramaturgo chileno Alejandro Jodorowsky, que incluía, no elenco, Luciano Chirolli, Pascoal da Conceição e Danilo Grangheia.
 
Vergueiro, bastante conhecida pelo curta Tapa na pantera, é o centro do documentário, mas o filme não é exclusivamente sobre ela. O longa acompanha o trabalho de atores e técnicos – especialmente nos bastidores –, contrapondo passado (as primeiras exibições da peça) com o presente (4 anos depois), seguindo a trajetória da atriz nesse tempo. O filme investiga, entre outras coisas, a relação de atrizes e atores com o próprio corpo.
 
A atriz sofre de Parkinson, o que a obriga a usar um ponto eletrônico para que alguém lhe passe o texto e não esconde isso ao longo do filme, que, de certa forma, se torna, então, uma investigação sobre como o corpo enfrenta a passagem do tempo – também para uma atriz isso é crucial. Os diretores lidam de maneira sóbria e nada sensacionalista com questões espinhosas – não apenas físicas e psicológicas, mas também financeiras, para a montagem do espetáculo, como ela mesma aponta.
 
A doença, conforme celebra Górgona, não se torna uma limitação para Vergueiro, mas abre novas possibilidades, novas maneiras de encarar a vida e seu trabalho. O longa se vale de uma câmera generosa, que acompanha a ela e seus companheiros de trabalho de forma delicada e discreta, deixando-os livres para serem quem são em cima e fora do palco.
 
“Aceitem a realidade! O tempo passou e trouxe a velhice!”, diz a personagem da atriz na peça. E, conforme o filme mostra, ela aceita que o tempo passou e a velhice chegou, mas isso não quer dizer que Vergueiro tenha de viver uma velhice conformista. Nesse sentido, mesmo com toda sua melancolia, Górgona é uma celebração do espírito de rebeldia e resistência que sempre marcou esta refinada intérprete.
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