09/06/2026
Documentário

Construindo pontes

Por toda a vida, Heloísa Passos teve profundos conflitos pessoais e políticos com o pai, o engenheiro Álvaro. Na idade madura, ela volta a olhar para este relacionamento problemático, procurando traçar as possibilidades de um diálogo, mesmo que sem conciliação.

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O documentário Construindo Pontes retrata um encontro que, de muitas maneiras, se transforma num embate, entre a diretora Heloísa Passos e seu pai, o engenheiro Álvaro Passos, armando uma narrativa que se vale de materiais de arquivo e conversas entre estes dois personagens, permitindo identificar as profundas diferenças pessoais e políticas que, ao longo da vida, os apartaram.
 
Evidentemente, o próprio ato de realizar o filme é uma opção pelo afeto e a busca do entendimento, a procura do outro – ainda que isso não signifique render-se ao que este outro pensa e diz. Em mais de um momento, soam mais alto as asperezas de uma profunda divergência política entre os dois, referentes ao modo de encarar a ditadura civil-militar de 1964 (tempo em que Álvaro acreditava haver “um projeto de País”) e também a derrubada da presidenta Dilma Rousseff, em 2016.
 
É uma filha de 50 anos que encara este homem, um melífluo manipulador, cuja voz suave e aparente calma não encobrem o jogo de poder que na verdade se trava entre um pai e uma filha, entre duas gerações diferentes, entre um homem e uma mulher que toda a vida discordaram e se dividiram, mas estão profundamente empenhados no bom termo de um projeto, o próprio filme.
 
De muitas maneiras, portanto, esse conflito espelha o de um Brasil em que portadores de posições contrárias não conseguem dialogar. Por isso, Construindo Pontes ganha uma oportunidade, um momento, exemplares, na medida em que problematiza esta cisão, contribuindo para uma reflexão até do verdadeiro sentido do que é democracia. Além de projetar luz no autoritarismo das relações familiares, ainda mais tendo em vista a hierarquia imposta historicamente sobre o espaço que cada sexo deveria, socialmente, ocupar.
 
Como seria de se esperar no trabalho de uma das melhores diretoras de fotografia do Brasil (Viajo porque preciso, volto porque te amoO que se moveLixo ExtraordinárioMulher do Pai), e que assina também esse quesito nesta estreia na direção, há imagens belíssimas – como a que mostra pai e filha ao lado de uma ferrovia construída por Álvaro, na parte final, e que ilustra com eloquência este choque de visões de pessoas que, por um motivo ou por outro, andam pela vida lado a lado.
 
O material de arquivo, reunido com a assessoria do experiente Antônio Venâncio, igualmente valoriza um filme que se revela, afinal, como o resgate do passado recente no Brasil que ecoa não só na vida dos personagens como na atual situação do País – como o “Brasil Grande” dos militares, responsável por grandes obras, como a usina de Itaipu, que sepultou para sempre a paisagem das Sete Quedas, outro símbolo eloquente das diferentes formas de encarar o desenvolvimento de uma nação.
 
Por ser capaz de colocar em paralelo essas visões numa jornada de diálogo, o filme se projeta como um manifesto pelo direito à divergência. A procura de síntese fica mesmo para mais adiante.
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