Dirigido por cinco diretores, o documentário Pagliacci recria a história de Fernando Sampaio e Domingos Montagner, dois atores que formaram a companhia La Mínima, em 1997, colocando em paralelo as velhas e as novas técnicas da arte de ser palhaço, que a dupla veio exercendo com raro talento e criatividade por duas décadas. Um ponto alto nesta trajetória foi o prêmio Shell de teatro, concedido em 2008 aos dois, como melhores atores do espetáculo A noite dos palhaços mudos, com roteiro de Laerte e direção de Álvaro Assad.
A morte trágica de Montagner, em 2016, num momento em que fazia sucesso fora da companhia, em filmes e novelas de TV, paira sobre o documentário, que acompanha o esforço de Sampaio para montar um novo espetáculo, contando com a viúva de Domingos, Luciana Lima, igualmente fundadora da La Mínima. Nesse registro do nascimento da nova montagem, que incorpora novos integrantes à trupe através de oficinas, esboça-se também um esforço de reflexão sobre o que consiste, afinal, ser palhaço.
A dupla Sampaio-Montagner encarnou em si mesma um dos pilares dessa arte, combinando o palhaço branco (esperto, bonitão) e o palhaço augusto (atrapalhado), referindo-se ao universo mítico da profissão retratado de forma exemplar pelo filme Os Palhaços (1970), de Federico Fellini, que era fascinado pelos personagens.
Alternando momentos da constituição do novo espetáculo – o primeiro sem Montagner – e fragmentos da história da La Mínima, o filme ganha consistência na exploração desse universo, sem uma preocupação didática muito estrita. Uma das sequências mais reveladoras é a visita de Sampaio ao mestre da dupla, o veterano Roger Avanzi, aliás, o palhaço Picolino, fazendo a ponte entre gerações que constitui a pedra fundamental desta profissão milenar.
Entra pelo meio das discussões a própria crise do modelo circense. Hoje, o circo de lona, itinerante, encontra dificuldade para encontrar espaços públicos para sua montagem (aumentando seus custos), restrições de comunidades religiosas e público declinante. Os espetáculos que atraíam às vezes 2000 pessoas hoje não chegam à metade disso.
O documentário termina numa nota emotiva, como não poderia deixar de ser, homenageando Montagner, que declama um poema de Luiz Gustavo. Para a companhia, essa ausência vai ser sempre muito difícil de preencher. Mas o circo nunca pode morrer.
