Documentário sobre o lendário diretor sueco Ingmar Bergman resgata sua trajetória a partir do ano de 1957, quando realizou dois de seus maiores filmes - "Morangos silvestres" e "O sétimo selo". São ouvidos seus colaboradores, alguns analistas de sua obra e a ex-mulher, a atriz Liv Ullman, entre outros. O diretor é visto em materiais de arquivo.
- Por Neusa Barbosa
- 02/07/2018
- Tempo de leitura 5 minutos
Documentário que teve sua première mundial no Festival de Cannes 2018, Bergman 100 anos, de Jane Magnusson, faz parte da programação de um ano em que se comemora o centenário de nascimento não só do mais influente cineasta sueco como de um dos maiores realizadores de todo o mundo, Ingmar Bergman (1918-2007).
Jornalista de TV sueca, que já havia assinado um outro documentário (Trespassing Bergman, 2013) e uma minissérie sobre o diretor, Jane entrevista cerca de 40 personagens, a grande maioria suecos, entre atores e técnicos que trabalharam com ele e alguns estudiosos de sua obra. Seu ponto de partida é o ano de 1957, em que o cineasta lançou dois de seus títulos mais celebrados, O Sétimo Selo e Morangos Silvestres, além de produzir um filme para a TV e nada menos de quatro produções teatrais, entre elas, uma encenação de cinco horas do clássico Peer Gynt, de Henryk Ibsen, texto que era tido como impossível de montar.
Este ano crucial na carreira de Bergman, que contava então 39 anos, foi definitivo para sua consagração, a conquista de um prestígio e poder até hoje sem paralelo na cena cultural sueca, sem contar sua projeção internacional. Tudo isso, como demonstra o documentário, tendo um preço – a invejável energia criativa de Bergman transbordava numa vida pessoal e amorosa caótica, dividida entre várias mulheres e filhos que ele mal via, além de uma saúde sempre delicada, com insônia e problemas gastrointestinais.
A proposta de focalizar este ano de 1957, no entanto, acaba não sendo seguida à risca, com a documentarista provavelmente dando-se conta de que não poderia abarcar a dimensão da obra deste diretor apenas a partir daí. Ela, então, passa a ir adiante e atrás no tempo, para incorporar depoimentos como a do apresentador norte-americano Dick Cavett, que realizou, em 1972, uma saborosa entrevista com Bergman, cujos trechos aparecem neste filme.
Um material inédito é a entrevista de Dag Bergman, irmão mais velho de Ingmar, nos anos 1980, em que ele desmente uma parte da mitologia pessoal alimentada pelo irmão sobre os abusos que teria sofrido de seu rígido pai pastor (que inspira o personagem do bispo Evard Vergérus de Fanny & Alexander). A dar-se crédito a Dag, foi ele, não Ingmar, o alvo dos castigos e da crueldade verbal do pai, sendo o irmão apenas testemunha disso. Esta entrevista, aliás, teria permanecido inédita até agora supostamente por pressões de Ingmar Bergman contra sua divulgação na ocasião em que foi feita.
Dos relatos de outros colaboradores próximos, emerge o perfil do diretor como alguém não raro tirânico, irascível, maníaco e difícil de lidar, até em coisas triviais – um exemplo está no pacote de bolachas Maria que consistia de sua dieta básica no set, em que ninguém se atrevia a tocar.
Um aspecto mais polêmico é levantado quando se aborda a simpatia juvenil que Bergman teria alimentado pelo nazismo quando, por volta dos 18 anos, esteve na Alemanha para aprender a língua local – uma passagem que o diretor alegava ter vivido em idade menor. De todo modo, na maturidade, o próprio cineasta teve oportunidade de fazer um filme crítico sobre o tema, O Ovo da serpente (1977), detalhe que o que o documentário não menciona.
É elogiável que a diretora deste filme tente romper a reverência ao mestre que retrata, o que propicia o resgate de alguns episódios como estes, que ele provavelmente não apreciava em sua biografia – como também um conflito feroz com o ator Thorsten Flinck, protagonista de uma montagem de O Misantropo, de Molière, em 1995. No entanto, também é inegável que a estrutura do documentário deixa a desejar, tornando-se um tanto desordenada à medida que abandona o fio inicial do ano de 1957.
Algumas entrevistas não dizem bem a que vieram – caso da atriz e cantora Barbra Streisand, que aparece muito no filme, e dos diretores John Landis e Lars von Trier (cada um deles soltando uma frase de efeito que não soma muito ao que se viu antes). Por outro lado, sente-se algumas ausências, como a do ator Max von Sydow, um dos mais frequentes nas produções de Bergman. Pode ser que esta ausência seja motivada pelo fato de o filho do ator, Henrik von Sydow, ter sido o coordenador da pesquisa deste documentário, mas mesmo assim, o testemunho faz falta. A atriz Bibi Andersson, também ainda viva, certamente deveria participar (e não se menciona que nenhum dos dois tenha sido procurado e declinado do convite).
Não há, igualmente, um cuidado particular na maneira de abordar a extensa filmografia do diretor. Eventualmente, algumas entrevistas que detalham situações pessoais tornam-se um pouco anedóticas demais, servindo apenas para quebrar a aura mítica de seu personagem.
Talvez o depoimento mais singular seja o da atriz Liv Ullman que, mesmo reconhecendo o quanto Bergman podia ser difícil, chora ao lembrar dele como “seu melhor amigo” e alguém que “nunca lhe fez mal”.
Ainda que, ao final do documentário, se possa perguntar se aprendemos algo novo sobre Bergman, de todo modo, é sempre bom falar dele e, ainda melhor, rever seus esplêndidos filmes.
