Aparentemente inspirado em A Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen, A Enfermeira Betty, de Neil LaBute, externa o poder alienante da televisão, através de uma espécie de metalinguagem, que coloca o espectador na mesma condição do protagonista da história. Através de um roteiro bem amarrado, o filme parece sabotar a si próprio com diálogos marcados por clichês manjados, com o intuito de reproduzir o clima do seriado. Em uma das cenas, Charlie, ao descobrir o filho morto, não se desespera, mas vomita para Betty um discurso ao melhor estilo novelão-mexicano, do tipo acredite em você mesma, você não precisa de ninguém para guiar seu caminho.
Na melhor cena do filme, Betty acaba conhecendo em uma festa o ator que interpreta o Dr. David. O fato de a moça lembrar de tudo o que se refere ao personagem impressiona tanto o ator quanto a produtora e roteirista do programa. Ambos aceitam que Betty está representando um papel para provar seu talento como atriz. É a partir daí que o filme se encaminha para que a garçonete tome consciência de sua condição de espectadora, mas isso só acontece quando ela passa para o outro lado da tela.
Prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes, e merecidíssimo Globo de Ouro de melhor atriz para Renée Zellweger, A Enfermeira Betty contrasta o violento mundo real com uma realidade fictícia, muito mais tenra e inocente. É essa ingenuidade que, de maneira quase infantil, é responsável pela inserção de Betty no fantasioso mundo da televisão. LaBute conseguiu criar um filme lúdico, delicado e humano, sobre a arte da manipulação na televisão e no cinema.
