20/07/2026
Drama

A Espinha do Diabo

post-ex_7

O gatilho desta história é um conceito de fantasma - definido como algo condenado a repetir-se infinitamente. Estabelecido este fio condutor, o filme se desenrola num trilho que sintoniza com um clima de pesadelo que é tanto mais angustiante quanto mais se mostra plausível. Uma grande qualidade, em se tratando de uma história de suspense.

O fantasma em questão tem contornos políticos - aponta para a Guerra Civil Espanhola, uma das mais ambiciosas tentativas de estabelecer uma revolução esquerdista do século XX - cujo fracasso ensejou uma das repressões mais sanguinárias de que se tem notícia. Mas o fantasma também se concretiza na figura do menino Santis (Junio Valverde), espectro de um morto insepulto do Orfanato Santa Lucía, desaparecido no dia em que uma bomba caiu no pátio do lugar mas não explodiu, tornando-se mais um elemento do perigo latente de viver naqueles tempos obscuros.

O orfanato é um lugar engajado. Abrigam-se ali apenas os filhos desprotegidos dos combatentes da esquerda que estão caindo diante das forças vitoriosas do general Francisco Franco. Comandam o lugar Carmem (Marisa Paredes), viúva de um dos heróis mortos, e o doutor Casares (Federico Luppi), guardiães de um ouro que alimenta a cobiça secreta do jovem empregado Jacinto (Eduardo Noriega). Entre os adultos, a história do fantasma de Santis não passa de uma lenda. Mas, entre os garotos, especialmente o recém-chegado Carlos (Fernando Tielve), a figura descarnada do menino morto torna-se quase instantaneamente uma realidade sobrenatural à qual ele não consegue escapar.

Com uma fotografia embebida em sépia e uma maquiagem exemplar - prova de que o diretor mexicano, Guillermo del Toro tem experiência no ramo - a estranheza da história se concretiza. Centrada nos meninos órfãos, a câmera revela uma Espanha desprotegida diante de condutores idealistas mas incapazes de concretizar seus sonhos, de um lado, e predadores ferozes e sem princípios, do outro. O roteiro, do próprio del Toro, em parceria com Antonio Trassorras e David Muñoz, habilmente cria outros focos de tensão, como o triângulo desigual formado por Carmem, Casares e Jacinto, e a culpa que atinge, em graus diversos, os pequenos Carlos e Jaime (Iñigo Garcés).

Co-produzido pela empresa El Deseo, dos irmãos Agustín e Pedro Almodóvar, o filme revela-se um drama rigoroso, mais sofisticado do que se poderia supor à primeira vista por suas diversas camadas de elaboração dos personagens e situações. Alguns poderão ressentir-se de sua atmosfera um tanto claustrofóbica, onde poucos escapes são deixados à esperança. Mas não há como negar o enorme salto de qualidade dado pelo diretor mexicano, que há quatro anos apenas entregou ao mundo Mutação, uma ficção científica a um passo de trash, com Mira Sorvino perdida num pesadelo de baratas gigantes.

post