04/06/2026
Comédia dramática

A outra história do mundo

Em Mosquitos, lugarejo do interior uruguaio, em 1983, um coronel está se mudando, trazendo consigo sua estimada coleção de anões de jardim. Dois amigos cinquentões, Milo e Esnal, decidem roubar os anões. O incidente acaba mudando drasticamente a vida dos dois.

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Em 1983, perto do final da ditadura militar uruguaia, 1983, um coronel (Néstor Guzzini) está chegando à cidadezinha de Mosquitos. Traz consigo uma estimada coleção de anões de jardim, que ele espalha no gramado em frente à casa.
 
As medidas controladoras do coronel – que manda fechar às 22h todos os bares da cidade, instituindo um toque de recolher – irrita especialmente dois amigos cinquentões, Milo (Roberto Suárez) e Esnal (César Troncoso), boêmios e intelectuais. Assim, decidem que é hora de dar uma lição no militar, roubando-lhe a coleção de anões na calada da noite. Enquanto Esnal se encarrega disso, Milo invade, mascarado, a estação de rádio local e, apontando uma arma ao locutor (Christian Font), obriga-o a ler um manifesto revolucionário.
 
Como resultado da travessura, Milo desaparece, deixando desesperadas suas duas filhas, Anita (Alfonsina Carrolcio) e Beatriz (Natalia Mikeliunas). Apavorado, Esnal refugia-se num esconderijo.
 
Nesta sua primeira metade, a sátira política do diretor uruguaio Guillermo Casanova (El viaje hacía el mar, 2003) tem uma pegada um pouco mais realista, centrando-se no drama da família de Milo, arrasada por seu desaparecimento e pela recusa dos militares de dar notícias sobre seu paradeiro. Resta a Esnal, finalmente, amargurado pela culpa, ressurgir na cidade e juntar-se a Anita e Beatriz na busca do amigo.
 
É preciso, no entanto, alguma dose de tolerância para alguns óbvios buracos no roteiro, assinado por Casanova e Inés Bortagaray, inspirando-se no romance Alívio do Luto, do escritor uruguaio Mario Delgado Aparaín – especialmente no que concerne à fuga e à volta de Esnal a Mosquitos. Deixando-se de lado a fragilidade na elaboração desta situação importante, a segunda metade do filme reserva emoções melhores e que, justamente, têm a ver com o título.
 
A certa altura, Esnal dirige-se ao coronel, que comanda toda a vida em Mosquitos, para pedir autorização para dar um curso de história no centro cívico da cidadezinha. Este aceita, com a condição de que o professor se limite à história antiga, evitando passar do Descobrimento da América, em 1492. Quanto menos se falar do tempo recente, melhor, adverte o militar.
 
Há, evidentemente, várias metáforas nada sutis ao longo do caminho – até mesmo os anões são um símbolo do nanismo político e cultural dos governantes fardados. As aulas de Esnal, por sua vez, vão revestir-se de um caráter cada vez mais delirante – que fazem, eventualmente, lembrar do filme brasileiro Narradores de Javé, de Eliane Caffé (2003), embora numa chave bem diferente. De todo modo, as licenças poéticas são marcantes e é óbvio o esforço de Esnal para refrescar a memória do desaparecido Milo nas consciências entorpecidas de seus concidadãos, bem debaixo do nariz de Amelia (Cecilia Cosero), a mulher do coronel que se tornou sua aluna para espioná-lo.
 
Esse tom meio fantástico, meio zombeteiro, é o que o filme uruguaio tem de melhor, ironizando a empáfia dos ditadores e o servilismo dos alcaguetes – como o notório carteiro Provisorio (Gustavo Perini) -, compondo uma fábula simples, mas que bem serve para evocar a força da memória e da imaginação.
 
A participação brasileira está defendida pelo ator Claudio Jaborandy, como o dono do bar, e do diretor de fotografia Gustavo Hadba. O filme foi o candidato do Uruguai a uma indicação ao Oscar de filme estrangeiro.
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