03/07/2026
Documentário

Tudo é irrelevante, Hélio Jaguaribe

Documentário traça o perfil do cientista político carioca Hélio Jaguaribe, um dos intelectuais mais expressivos desde os anos 1950, autor de projetos desenvolvimentistas para o Brasil e atuante na transição democrática de 1985. Entrevistas de Celso Lafer, Maria da Conceição Tavares e Candido Mendes.

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Advogado, sociólogo e cientista político da maior importância, Hélio Jaguaribe, 95 anos, tem sua trajetória examinada no documentário Tudo é Irrelevante – um título provocativo que, no entanto, faz todo sentido.
 
Explica-se o título a partir do ateísmo de Jaguaribe, ironicamente, adquirido a partir de sua educação jesuítica – tudo seria irrelevante porque, não existindo Deus, como ele acredita, a alma humana é imortal e a Terra, apenas um dos ciclos cósmicos do universo. Mas aí está, igualmente, uma outra crença que fornece a chave para entender este intelectual nada niilista: o homem é uma busca incessante de sentido. E a transcendência, inerente à natureza humana, podendo ser desenvolvida ou não, encontra sua expressão maior na música.
 
Definido este território, o filme, assinado pela filha e o genro do intelectual, Izabel Jaguaribe e Ernesto Baldan, parte para outras definições de seu personagem, integrante de uma das mais brilhantes gerações de intelectuais que, ao longo dos anos 1950 e além, pensaram profundamente o Brasil.
 
Jaguaribe fez parte da corrente desenvolvimentista, que idealizou o fortalecimento da industrialização nacional, aliada com democracia e liberdade para construir a nação. Também apoiou a integração latino-americana como arma para superação do subdesenvolvimento regional, através de organismos como a CEPAL, com sede em Santiago, inspirada nas ideias de Celso Furtado e Raul Prebisch.
 
Como intelectual público, exercitou seu desejo de mudar a realidade brasileira, contribuindo também com obras em torno da singularidade do País, especulando sobre as razões de seu atraso e propondo projetos de um nacionalismo não-xenófobo, centrado num capitalismo que nunca perderia de vista a superação do terceiro-mundismo.
 
O filme contrapõe várias fases da vida de Jaguaribe, contando com entrevistas de colegas e amigos como Celso Lafer, Luiz Carlos Bresser Pereira, Maria da Conceição Tavares, Candido Mendes, Francisco Weffort, Jorge Hue e outros, dando conta não só de episódios profissionais como de notas pessoais, que compõem o perfil de um homem multifacetado e divertido, filho de uma portuguesa nascida no Porto e de um cearense, geógrafo e cartógrafo.
 
Embora destaque seu papel na transição democrática nos anos 1980, o filme não comenta sua participação nos governos José Sarney e Fernando Collor de Mello (de quem foi ministro da Ciência e Tecnologia), nem suas vinculações partidárias (foi fundador do PSDB). De todo modo, é um retrato bastante matizado de um intelectual de extenso legado.
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