Em Histórias que nosso cinema (não) contava, a diretora Fernanda Pessoa faz um trabalho de arqueóloga, de escavação do passado em busca de documentos históricos que joguem uma luz no presente. O objeto são as famosas pornochanchadas dos anos de 1970, produzidas em larga escala no Brasil da ditadura. Ao contrário do senso comum, conforme mostra o documentário, havia um teor político, às vezes, mais explícito do que o sexo.
O que acontecia é que a política ficava enterrada em meio a frases de duplo sentido, nudez (em sua grande parte feminina) e insinuações sexuais. O trabalho de Pessoa é destacar diversos diálogos e situações que escancaravam a situação social, econômica e política do Brasil que, dentro dos filmes, vinham tão escamoteadas a ponto de passar incólumes pelos censores.
Entre essas pérolas da cinematografia nacional está, por exemplo, A super fêmea, de 1973, dirigido por Anibal Massaini Neto. No filme, Vera Fischer, que interpreta, obviamente, a personagem-título é uma bela modelo contratada para divulgar uma pílula anticoncepcional masculina. Num dado momento, numa passeata na rua, vê-se numa faixa: “Povo feliz é povo desenvolvido” – uma ideia que Histórias que nosso cinema... contrasta com imagens (de outros filmes) de um povo infeliz e subdesenvolvido.
Outro exemplo é O enterro da cafetina, de 1971, de Alberto Pieralisi, a partir de um texto de Marcos Rey. Jece Valadão interpreta um amigo e cliente da cafetina que relembra sua trajetória. O filme toca em temas como subversão e censura. O tom cômico ajudava os filmes a passarem pela censura. Essa foi a quinta maior bilheteria de longa nacional em seu ano de estreia.
Pessoa e o montador Luiz Cruz organizam uma narrativa com pedaços de diversos filmes, criando um diálogo entre as obras que expõe com clareza o momento histórico em que os filmes foram produzidos. Exposição tão lúcida desse subtexto político das pornochanchadas serve também para combater o preconceito contra o gênero.
