Estruturando-se como um inventário de vidas perdidas, com um núcleo dramático que oscila ao sabor de dezenas de histórias, a narrativa do filme caminha no fio da navalha.Um percurso arriscado. Não há heróis aqui.
A cena de abertura não facilita o que vem a seguir. O espectador é colocado na mesma posição do médico-narrador (Luiz Carlos Vasconcelos), desembarcando no território desconhecido da maior prisão da América Latina bem no meio de um conflito entre os detentos Lula (Dionísio Neto) e Peixeira (Milhem Cortaz). O primeiro quer vingar a morte do pai, cometida pelo segundo. Uma grande faca sumiu da cozinha do presídio e tudo pode acontecer - uma áspera amostra da tensão permanente desse universo.
Não é fácil o que o filme pede do espectador - que acompanhe tantas biografias tortuosas sem julgá-las, como o médico. Uma postura que representa um risco bem maior para o filme do que foi para o livro, o bestseller de Drauzio Varela, Estação Carandiru, seu ponto de partida. Afinal, se nem uma obra nem a outra cosmetizam essas pessoas que vivem na contramão da lei, não há aqui, como no livro, um médico respeitado como Varela guiando o leitor pela mão, suspendendo sua natural resistência diante daqueles que tantas vezes agridem a ordem de sua vida, do lado de fora daquelas grades. Muito pelo contrário: a figura mais discreta neste filme é a do médico-narrador que atua numa chave que procura apagar sua presença.
Estas duas opções - a entrada brusca na ação e o narrador quase invisível - são a carta de apresentação de um filme muito aguardado. Uma expectativa que não é necessariamente garantia de sucesso, embora seja de exposição na mídia, por se tratar da adaptação de um dos maiores sucessos editoriais do país. Deixando de lado essa expectativa, que afinal é externa à história que aqui se pretende contar, Carandiru representa a volta para casa, profissionalmente falando, do diretor Hector Babenco. Depois do intervalo extremamente pessoal de Coração Iluminado(1998), Babenco volta a abordar a vida atrás das grades, tema de três de seus filmes anteriores, (Lúcio Flávio, O Passageiro da Agonia, Pixote, A Lei do Mais Fraco) e O Beijo da Mulher Aranha). Em outras palavras, o cineasta retorna o foco aos excluídos da ordem social que sempre foram a opção preferencial de sua cinematografia. A diferença é que, tendo Carandiru um eixo tão coletivo, a ambição do filme chega a ser épica.
Não que se deixe de lado o individual, nem se poderia. Mas as histórias de Seo Chico (Milton Gonçalves), que passou praticamente toda a vida na cadeia e tem 18 filhos; do "juiz" informal das rixas Nego Preto (Ivan Junqueira); de dois irmãos de criação (Wagner Moura e Caio Blat) unidos na prisão; do traficante Majestade (Ailton Graça) e suas duas mulheres (Maria Luisa Mendonça e Aida Lerner); e do insólito casal formado pelo travesti Lady Di (Rodrigo Santoro) e o enfermeiro Sem Chance (Gero Camilo) somam suas tintas para compor este microcosmo que sintetiza como poucos a desordem social brasileira. Uma desordem assim escancarada desemboca numa das cenas mais emblemáticas quando, antes de um jogo de futebol na prisão, os presos cantam o Hino Nacional - um recurso que teria tudo para soar falso e, no entanto, mostra-se o mais apropriado a tudo o que o filme está dizendo sobre o país.
A seqüência do massacre dos 111 presos, de 1992, é claramente outro ponto alto. Partindo de um desentendimento banal entre alguns detentos depois do jogo de futebol, a rebelião se arma com a fúria de uma onda que afinal toma toda a prisão, com os resultados conhecidos. Duas cenas ficam na memória: a água manchada de sangue quando se lava as escadas e uma outra em que um cão policial encara um gato, ambos imóveis.
Apesar de ter lido livros sobre teorias comportamentalistas, em torno de experiências com ratos e macacos, Babenco não contaminou seu olhar. Fez um filme seco, sem sociologia, certeiro num humanismo que rejeita a piedade.
Cabe uma comparação com Cidade de Deus, outro grande filme coletivo sobre as mazelas brasileiras. A maior diferença está na linguagem. Babenco imprime menor velocidade ao seu ritmo, apoiado numa câmera mais tradicional, menos volátil. É uma narrativa mais naturalista e mais bruta, também mais irregular, menos compassada, até por conta de alguns desequilíbrios em diálogos e interpretações. Coisa natural num gigante narrativo que carrega 26 protagonistas, 120 atores secundários e 8.000 figurantes, dos quais nem todos sobreviverão.
