Abandonada pelo marido Pepe (Álex Angelo), enjoado de tanta bondade, Dolores encara a depressão. É convencida pela amiga Floren (Mariola Fuentes) a deixar sua casa vazia e morar com ela, dividindo o serviço do único bar da cidade. No bar, Dolores continua exercendo sua invencível vocação para ombro amigo que num certo momento vai entrar por um desvio espantoso. Não por desejo, mas por pura pena, a carola Dolores aceita deitar-se com um estranho solitário de passagem. A coisa vira rotina, com uma fila de feiosos, abandonados, desiludidos e rejeitados formando-se à porta do bar. Um arranjo que não incomoda nem mesmo as esposas de alguns desses "clientes", por assim dizer, já que Dolores, que agora se chama Lolita, nega-se a receber um único centavo por sua "missão".
Nem todo mundo morre de amores por essa nova missionária de formas arredondadas e rosto maternal - um físico que cairia bem melhor numa freira. As prostitutas, por exemplo, vêm em peso reclamar da concorrência desleal, que está arruinando seu ganha-pão. A volta do marido também coloca em cheque a situação, adicionando mais tempero à guerra entre os sexos que se forma a partir daí.
Pode não ser tão segura ainda a mão desta diretora e roteirista, que atuou em 15 filmes - como La Teta y la Luna, de Bigas Luna - e escreveu, também, o livro que desencadeou este roteiro, Paranóias de Gente Corriente, que era inédito quando o filme foi feito. Ainda assim, é positiva a busca de originalidade, de um tom zombeteiro ao explorar um fio de realismo fantástico, bem como a oscilação entre preto-e-branco e cor para descrever a alteração dos humores desta pequena cidade. O filme circulou bem em festivais, como o Roterdã/2001, ganhando prêmios nos de Málaga e Guadalajara.
Cineweb-11/4/2003
