Dirigido pela estreante Alice Gomes, com supervisão artística de Jeferson De, o documentário A última abolição é uma preciosa contribuição para repensar os 130 anos da abolição da escravatura – que é um marco a ser discutido em qualquer esforço civilizatório da memória nacional.
Entrevistando diversos pesquisadores, historiadores e juristas, o filme perpassa diversos momentos dessa herança negra escamoteada da identidade nacional. Afinal, em três séculos e meio, o Brasil recebeu cerca de 5,8 milhões de africanos, sendo o último país ocidental a extinguir a escravidão.
Habilmente, o filme constrói uma narrativa cheia de informações novas, que permitem complementar uma História oficial que costuma relegar aos rodapés, quando muito, a participação de diversos cidadãos de origem africana, bem como examinar a fundo suas rebeliões e iniciativas libertárias. Uma delas, a Frente Negra Brasileira, criada em 1931, um dos pioneiros movimentos pela igualdade racial e que inspirou até os Panteras Negras, nos anos 1960, fato poucas vezes reconhecido.
Indispensável também, a esta altura, rever mitos como o da “democracia racial”, de Gilberto Freyre, que frequentemente tem sido usado para escamotear uma visão clara do racismo e das múltiplas formas de exclusão e opressão da população negra na sociedade brasileira. Não falta, igualmente, um retoque na santificada imagem da princesa Isabel, a regente que assinou a Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, destacando a importância de André Rebouças, engenheiro negro e abolicionista que a influenciou nesta direção.
Sem pretender esgotar tema tão vasto, A última abolição abre inúmeras portas nas consciências sensíveis e atentas, tornando-se, por isso, um filme absolutamente incontornável em momento em que se disputa a importância das ações afirmativas e a superação dos preconceitos.
