Intitulado simplesmente Carvana, como deve ser, o documentário assinado por Lulu Corrêa repassa alguns dos principais momentos dos 60 anos de carreira do ator e diretor carioca Hugo Carvana, deixando ao próprio a tarefa de recontar suas façanhas. Ele o faz em inúmeras entrevistas, com aquele seu humor e verve peculiares, transformando num grande prazer acompanhá-lo na viagem.
Sendo assim, o filme nos permite lembrar do artista, que morreu em 2014, deixando atrás de si uma trajetória luminosa. Habitante da Tijuca, na zona norte do Rio, ele transformou a coincidência de morar ao lado de cinco cinemas num motivo de paixão pela arte que arrebataria sua vida. Estudante de teatro, foi figurante em chanchadas e passou pelas mãos de alguns dos maiores diretores do Cinema Novo, caso de Ruy Guerra (Os Cafajestes, Os Fuzis), Leon Hirszman (A Falecida), Glauber Rocha (Terra em Transe, O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro). Sobre Glauber, ele lembra do temperamento explosivo, da forma de dirigir ficando a um palmo do corpo do ator, gritando “grita”, “chora!”. Tudo isso dito com muita ironia mas também respeito.
Ele mesmo tornou-se diretor de algumas clássicas comédias brasileiras, caso das icônicas Vai Trabalhar Vagabundo (1973) e Bar Esperança (1982) – nas quais cristalizou o espírito da época, a vontade de fazer um país novo que desembocou na Campanha das Diretas. Como ele mesmo disse: “Meus filmes nascem da alegria”. E é por isso que Carvana faz uma falta danada. O documentário é um jeito de matar a saudade de um personagem exemplar.
