O documentário, que venceu dois prêmios no Festival do Rio 2016 – melhor direção de doc e melhor fotografia -, tem a marca do fino ateliê formado por Sérgio Oliveira e Renata Pinheiro. Juntos, eles têm dirigido, produzido, roteirizado e realizado múltiplas funções em filmes como os curtas Super Barroco e Praça Walt Disney, e os longas Amor, Plástico e Barulho, Açúcar e Estradeiros.
Sem recorrer a narração ou entrevistas, Super Orquestra Arcoverdense de Ritmos Americanos desenha um território, recortando um pedaço do país – Arcoverde, a 250 km de Recife, no sertão pernambucano – para contar parte da experiência desta inusitada reunião de músicos, que dura desde 1958, transformando esse mote no fio condutor de uma reflexão sobre tradição e mudança.
Sintomaticamente, a primeira sequência mostra uma corrida de jegues, animais que serão simbólicos do processo de transformação desta região, beneficiada pelas obras da transposição do rio São Francisco e uma urbanização que muda rapidamente a paisagem humana, física e animal.
A orquestra, conduzida pelo maestro Beto (Egerton Verçosa do Amaral), como o nome já diz, toca New York, New York, Fly me to the Moon e outros standards norte-americanos, que embalam festas de debutantes e casamentos, numa cidade que está despertando para as baladas eletrônicas e onde as motos estão substituindo os jegues – cujos olhos tristes são uma espécie de contraponto ao movimento e agitação.
Além de registrar imagens desses deslocamentos de pessoas e animais, inserindo-se em suas vivências com uma câmera que procura tornar-se invisível mas é muito íntima e onipresente, os realizadores não se furtam a incorporar uma nota de artifício, filmando uma performance com bailarinos nas ruas da cidade, que por sua vez reinterpreta elementos da cultura popular local, como o bumba-meu-boi e o reisado, tudo isso fundido em batida pop, ao som de Am I Black Enough for You?, com Billy Paul. Mais um exemplo de como tudo é junto, misturado e reinventado neste sertão, já faz tempo.
Nessa fusão de tempos que é a própria essência da vida, o documentário assinala seu grande valor, com um domínio de linguagem e uma riqueza de conteúdo que é raro encontrar ao fornecer um instantâneo de um pedaço do Brasil profundo, sobre o qual muito se fala e bem pouco se sabe.
