O documentário Tá rindo de quê?, assinado pelo trio de diretores Cláudio Manoel, Álvaro Campos e Alê Braga, examina o esforço de humoristas, cartunistas, atores e artistas do humor para driblar a repressão e os rigores da censura sob a ditadura civil militar 1964-1985. Cláudio Manoel, membro da trupe do Casseta & Planeta, é do ramo.
Passam pelo crivo artistas de televisão, como Chico Anysio e Os Trapalhões, Carlos Alberto da Nóbrega – herdeiro de Manoel da Nóbrega e suas diversas “Praças” - , de teatro, como Ary Toledo e a trupe do Asdrúbal Trouxe o Trombone (que inclui Regina Casé, Luiz Fernando Guimarães e Evandro Mesquita), da imprensa alternativa, como o pessoal do jornal O Pasquim, que reuniu jornalistas e cartunistas, como Ziraldo, Jaguar e Millôr Fernandes, entre outros.
Para dar conta deste passeio pelas décadas passadas, recorre-se a muito e bom material de arquivo e algumas entrevistas, notadamente com Bruno Mazzeo, filho e herdeiro de Anysio, Fafy Siqueira, Regina Casé, Evandro Mesquita, Hamilton Vaz Pereira e Jaguar – que, como poucos, pode dar seu depoimento sobre o enfrentamento diário com a censura e o risco de prisão, que algumas vezes se concretizou (uma vez, foi em cana toda a redação do Pasquim).
Entrevistas com José Bonifácio Sobrinho, o Boni, e Daniel Filho, se completam o panorama com a visão de quem ocupava postos de poder na Rede Globo e, portanto, tinha que tomar decisões e negociar diretamente com censores e autoridades. Mas sua presença também evidencia uma limitação do filme – tornar-se excessivamente centrado nos programas e personagens da emissora, que é sua produtora.
O foco também está por demais restrito ao Rio de Janeiro, deixando de fora o trabalho de grupos de outros estados, como, por exemplo, o paulista Premeditando o Breque – do qual aparece uma única imagem, nos créditos finais.
Por outro lado, há um inegável ponto positivo – discutir a objetificação da figura feminina nas piadas e quadros humorísticos, bem como a invisibilização das mulheres humoristas naqueles dias, o que é feito por Alcione Mazzeo, Kate Lyra e Fafy Siqueira. Também é oportuno resgatar, como o documentário faz bastante bem, a figura pioneira de Dercy Gonçalves, uma rara humorista de ponta, no teatro e no cinema, ousada e provocativa como poucas. Mas sente-se falta, por exemplo, de menção a outras, como Zilda Cardoso, a Catifunda da Escolinha do Professor Raimundo, uma das mais duráveis criações de Chico Anysio.
Pode-se até admitir que um único documentário sobre um tema e um período tão vastos seria insuficiente para dar conta de tudo e de todos que mereceriam figurar nele – para isso, talvez fosse necessária uma minissérie. Em todo caso, poderia haver um pouco mais de equilíbrio na divisão do espaço dado aos personagens.
